Huawei, ZTE e a desconfiança em relação à China

Cláudia Trevisan

09 de outubro de 2012 | 08h22

A desconfiança que marca o relacionamento entre a primeira e a segunda maiores economias do mundo foi escancarada ontem com

Documento

do Congresso norte-americano segundo o qual as fabricantes de equipamentos de telecomunicações Huawei e ZTE representam uma ameaça à segurança nacional e devem ser impedidas de fazer aquisições ou fusões no país. Depois de um ano de investigação, o Comitê Permanente sobre Inteligência concluiu que as duas empresas podem facilitar atos de sabotagem e espionagem por uma nação “já conhecida como uma das principais perpetradoras de cyber espionagem” do mundo, afirma o documento divulgado ontem. Huawei e ZTE atuam no Brasil, onde são grandes fornecedores de equipamentos para operadoras de telefonia.

A decisão representa um golpe econômico duríssimo para as duas corporações, que crescem rapidamente na Europa e em países em desenvolvimento, mas encontram uma muralha quase intransponível no maior mercado do mundo. Huawei e ZTE refutam as acusações e afirmam que as conclusões ignoraram evidências que apresentaram no processo de investigações.

Independentemente de quem tenha razão, uma coisa é certa: o modelo chinês de crescimento e expansão global que privilegia grandes estatais ou empresas com fortes vínculos com o Estado gera suspeitas crescentes no restante do mundo, onde se aprofunda a percepção de que Pequim joga um jogo com regras próprias.

Antes dos Estados Unidos, a Austrália já havia citado questões de segurança nacional para vetar a participação da Huawei na construção de uma rede de banda larga em todo o país _um projeto de US$ 36 bilhões.

“Considerando informações confidenciais e não-confidenciais, não se pode confiar que Huawei e ZTE sejam livres de influência de um Estado estrangeiro e, portanto, representem uma ameaça de segurança aos Estados Unidos e aos nossos sistemas”, ressaltou o relatório.

As suspeitas em relação às duas empresas são alimentadas por um modelo no qual o Partido Comunista tem uma presença tentacular na economia, por meio de “comitês” em todas as empresas, privadas, estatais ou estrangeiras. Também há uma política agressiva de apoio às “campeãs” nacionais, por meio de subsídios, crédito barato e um sistema jurídico-legal dominado pelo Partido Comunista, no qual multinacionais não têm chances de questionar práticas que consideram impróprias.

A Huawei não é uma estatal e tem uma trajetória espetacular, que a transformou em uma das maiores fabricantes mundiais de equipamentos de telecomunicações em duas décadas. Mas existem dúvidas sobre a natureza de suas relações com o partido, o governo e os militares. Seu fundador é Ren Zhengfei, um ex-integrante do Exército de Libertação Popular que criou a empresa em 1987 com um capital inicial de 21 mil yuans (US$ 3,33 mil ao câmbio de hoje).

Além de sugerir a proibição de fusões e aquisições, o comitê recomendou que o governo norte-americano exclua as duas empresas chinesas de sua lista de fornecedores, especialmente para sistemas “sensíveis”. Empresas privadas são “fortemente encorajadas” a considerar os riscos de segurança associados a realizar negócios com a ZTE e a Huawei e a buscar outros parceiros para seus projetos.

“Encontre outro fornecedor se você se preocupa com sua propriedade intelectual, se você se preocupa com a privacidade dos consumidores e se você se preocupa com a segurança nacional”, disse em entrevista o deputado republicano Mike Rogers, presidente do comitê.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.