Imolação é nova arma de tibetanos contra a China

Cláudia Trevisan

28 de novembro de 2011 | 09h41

A monja budista Palden Choestso tinha 35 anos quando tirou a própria vida para protestar contra a política chinesa para as regiões habitadas por tibetanos no país. No dia 3 de novembro, ela ateou fogo a seu corpo e gritou “longa vida ao dalai lama” e “deixem o dalai lama voltar ao Tibete”, de acordo com relatos transmitidos por testemunhas a entidades pró-Tibete sediadas no exterior. Palden morreu no mesmo local onde o monge Tsewang Norbu, 29, havia se imolado em agosto, na cidade de Tawu, província de Sichuan.

Desde março, 11 monges ou ex-monges tibetanos atearam fogo a seus corpos, uma forma extrema de protesto político que está sendo cada vez mais utilizada pelos tibetanos. Só em outubro foram 7 casos. Das 11 pessoas que se imolaram neste ano, 6 morreram e o paradeiro das demais é desconhecido, segundo as mesmas entidades.

Antes de 2011, o único episódio de imolação entre os tibetanos na China havia sido registrado em fevereiro de 2009 e envolveu um monge chamado Tabe, que sobreviveu às queimaduras. A primeira mulher a se imolar antes de Palden foi a também monja Tenzin Wangmo, 20 anos, que morreu no dia 17 de outubro. Todos os casos ocorreram em áreas habitadas por tibetanos na província de Sichuan, vizinha ao Tibete. O centro dos protestos é o mosteiro Kirti, onde vivem 2.500 monges na cidade de Aba, que foi ocupada por forças militares e paramilitares depois da imolação de março e vive sob um não declarado estado de sítio. Há barreiras policiais nas estradas que levam à região e jornalistas são impedidos de chegar ao local. Apenas dois conseguiram furar o bloqueio nas últimos meses.

No mês passado, painel da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre liberdade religiosa manifestou preocupação com as medidas de segurança impostas em Aba, que incluem constante presença de policiais dentro e fora dos monastérios e monitoramento das atividades religiosas. Segundo o grupo, as ruas estão ocupadas por integrantes da tropa de choque, soldados armados com fuzis automáticos e caminhões militares. “Essas medidas restritivas não apenas limitam a liberdade religiosa ou de crença, mas exacerbam as tensões existentes e são contraproducentes”, declarou Heiner Bielefeldt, relator especial sobre liberdade religiosa e de crença da ONU. Bielefeldt avaliou que as medidas de segurança agravaram ainda mais a tensão entre a população tibetana e Pequim. “A intimidação da comunidade leiga e monástica deve ser evitada e o direito da comunidade monástica e toda a comunidade de praticar sua religião deveria ser totalmente respeitado pelo e garantido pelo governo chinês”, ressaltou.

Além de aumentar a repressão na região, as autoridades chinesas reagiram com acusações ao dalai lama, a quem classificam de separatista e “terrorista disfarçado”. Na quinta-feira, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Hong Lei, responsabilizou os tibetanos no exílio pelas imolações. “Os grupos ‘pró-independência’ do Tibete elogiaram esses suicídios e até defenderam sua imitação”, declarou Hong, em briefing regular com a imprensa. “O que eles estão fazendo desafia a moral humana e eles nunca vão conseguir o que querem. Os budistas chineses sabem que o suicídio deve ser condenado. Pessoas de comunidades religiosas acreditam que a vida deve ser valorizada e que eles devem seguir a verdadeira doutrina do budismo”, acrescentou o porta-voz.

Despois de um fracassado levante contra o domínio chinês em 1959, o dalai lama deixou o Tibete e se exilou na Índia, onde onde está instalado o chamado governo tibetano no exílio. Sua imagem é banida dentro da China e monges tibetanos são obrigados a frequentar classes de “educação patriótica”, nas quais devem renega-lo e prometer lealdade a Pequim. “O dalai lama é a mais importante figura religiosa para os tibetanos e esses monges manifestaram devoção a ele durante todas as suas vidas. Para alguns é preferível perder a vida do que ter que renegá-lo”, disse ao Estado Andrew Fischer, professor do Instituto de Estudos Sociais de Haia, na Holanda.

Em sua opinião, as imolações são provocadas por um sentimento de desespero e frustração em relação às políticas de Pequim para os tibetanos, que são agravadas pela extrema repressão imposta a Kirti. O monastério sediou fortes manifestações contra a China em 2008, logo depois de confrontos entre tibetanos e chineses han em Lhasa, capital do Tibete _os han são a etnia que representa 91,5% da população do país. No dia 16 de março daquele ano, 13 monges de Kirti foram mortos a tiros pelas forças de segurança chinesas. O primeiro monge a se imolar em 2011 foi Phuntsog, 21, que tirou sua vida no dia 16 de março, três anos depois dos protestos de 2008.

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