Inflação chinesa cede, mas não está derrotada

Cláudia Trevisan

10 de novembro de 2011 | 07h53

A inflação chinesa desacelerou em outubro pelo quarto mês consecutivo e atingiu o mais baixo patamar desde maio, mas não há consenso entre os analistas sobre a possibilidade de o governo relaxar a política monetária para amenizar o cenário de escassez de crédito que penaliza o setor imobiliário e as pequenas e médias empresas do país.

O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) fechou o mês em 5,5%, abaixo dos 6,1% registrados em setembro. O indicador atingiu 6,5% em julho, o mais elevado patamar em três anos, e recuou para 6,2% em agosto. Depois de permitir uma explosão de crédito em 2009 e 2010, o Banco do Povo da China começou há um ano a reduzir a quantidade de dinheiro em circulação na economia, na tentativa conter a formação de uma bolha no setor imobiliário e amenizar a pressão do excesso de liquidez sobre os preços.

Essa política secou as fontes de financiamento para vários setores, incluindo braços do próprio governo, que enfrentam problemas para saldar débitos e pagar fornecedores. As vendas no setor imobiliário caíram de maneira acentuada em outubro e os preços de novos imóveis estão em ligeira queda desde setembro. Somadas ao cenário externo hostil, essas dificuldades devem reduzir o ritmo de crescimento da segunda maior economia do mundo para algo entre 7,5% e 8,5% no último trimestre do ano, depois dos 9,1% registrados no trimestre encerrado em setembro.

Mas apesar da desaceleração da inflação, ainda não há espaço no curto prazo para o governo relaxar o aperto monetário, avaliou Zhao Xian Wei, analista-chefe de macroeconomia da China Galaxy Futures. “Os preços estão aumentando menos porque houve redução na quantidade de dinheiro na economia. Se a liquidez aumentar, a inflação voltará a subir”, afirmou Zhao. Zhang Liqun, do Centro de Pesquisas em Desenvolvimento do Conselho de Estado _o gabinete chinês_, ressaltou que o governo deverá ter cautela no ajuste da política monetária. Em entrevista à agência oficial de notícias Xinhua, ele observou que a base monetária está atualmente em 1,8 vez o PIB chinês. Em 2008, o indicador era de 1,54 vez.

“O tamanho da base monetária continua enorme e os responsáveis pela política econômica devem ter cuidado em relação à política monetária e não ignorar seu potencial para elevar os preços”, disse Zhang. O economista-chefe da Minsheng Securities, Teng Tai, acredita que a inflação manterá a tendência de queda nos próximos meses e estará abaixo de 3% em meados de 2012. Em sua avaliação, essa trajetória permitirá que o governo relaxe gradualmente a política monetária, com injeção de liquidez na economia.

Mesmo os que apostam em uma mudança de rumo acreditam em medidas pontuais de apoio a determinados setores e consideram improvável a redução imediata do depósito compulsório dos bancos ou da taxa de juros. Os líderes chineses tentam equilibrar o combate à inflação com a manutenção de um ritmo de crescimento na casa dos 9%, em meio ao agravamento da crise mundial. A Europa é o principal mercado das exportações chinesas e os embarques se reduziram em razão da crise da dívida que afeta o continente.

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