Inflação de 5,5% ameaça estabilidade social na China

Cláudia Trevisan

15 de junho de 2011 | 05h34

A inflação chinesa atingiu no mês passado o mais alto patamar desde julho de 2008, o que forçou o banco central a elevar pela sexta vez no ano a quantidade de dinheiro que os bancos devem manter como reserva, sem emprestar a seus clientes. Apesar de alto, o índice de 5,5% era esperado pelo mercado e foi compensado por números positivos relativos à produção industrial e a investimentos, o que afasta pelo menos temporariamente o temido cenário de baixo crescimento acompanhado de inflação.


Mesmo dentro do esperado, o índice de preços está bem acima da meta oficial de 4% para o ano e longe da zona de conforto do governo chinês, que teme seu impacto sobre a estabilidade social do país. Desde maio, Pequim enfrenta uma série de protestos em diferentes regiões da China, provocados por disputas de terra, degradação ambiental, abusos de poder e conflitos salariais.

A tensão é agravada pelo fato de os alimentos serem os principais responsáveis pela alta da inflação nos últimos meses _em maio, eles subiram 11,7%, puxando o índice geral. A carne de porco, de longe a mais consumida pelo chineses, ficou 40% mais cara no mês passado.

As remarcações de produtos não-alimentícios também se aceleraram e atingiram 2,9%, o mais elevado resultado em seis anos, enquanto os preços no atacado subiram 6,8%, mais do que esperado pelo mercado. A expectativa dos analistas é a de que o Índice de Preços ao Consumidor suba ainda mais em junho e julho, para algo entre 5,8% e 6,0%, antes de retroceder nos meses seguintes. Para o ano, as previsões apontam para um patamar próximo de 5%, superior à meta oficial.

Poucas horas depois do anúncio da inflação de maio, o Banco do Povo da China (banco central) divulgou o aumento de 0,5 ponto percentual no depósito compulsório dos bancos, que passará para os índices recordes de 21,5% (grandes instituições) e 19,5% (médias e pequenas). Segundo estimativa do J.P.Morgan, a medida vai retirar de circulação 380 bilhões de yuans, o equivalente a US$ 58,6 bilhões.

Desde o início do ano passado, a autoridade monetária elevou em 12 ocasiões a quantidade de recursos que os bancos devem manter como reserva, em um esforço para controlar a oferta de crédito e reduzir a pressão inflacionária do excesso de liquidez na economia.

Analistas acreditam que o banco central foi rápido na resposta porque os números de maio indicaram que o crescimento se mantém acelerado. “O mercado está cada vez mais preocupado com um pouso forçado na China, mas os dados recentes mostram que a economia continua forte”, escreveu a economista-chefe do banco UBS
 na China, Wang Tao.

Mesmo com o aperto monetário promovido nos últimos meses, a produção industrial teve expansão 13,3%, ligeiramente abaixo dos 13,4% de abril. Na comparação mês a mês, o indicador subiu 1,03%. No acumulado do ano, o índice foi de 14,0%, 0,2 ponto percentual inferior ao registrado em igual período de 2010. O investimento em ativos fixos _destinado à criação de fábricas, compras de máquinas e construção de imóveis e infraestrutura_ aumentou 25,8%, patamar 0,4 ponto percentual superior à média dos quatro meses anteriores.

No acumulado do ano, os recursos destinados a investimentos no setor imobiliário tiveram alta de 34,6%, apesar das medidas adotadas para evitar o surgimento de uma bolha especulativa. Com a perspectiva de que a inflação continuará em alta, a maioria dos analistas acredita que o banco central manterá a atual política de moderado aperto monetário e promoverá pelo menos duas alta na taxa de juros até o fim do ano.

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