Jornalista uigur é condenado a 15 anos de prisão por dar entrevista

Cláudia Trevisan

27 de julho de 2010 | 11h26

O jornalista e intelectual uigur Gheyret Niyaz foi condenado a 15 anos de prisão na China por ter dado entrevista a uma publicação de Hong Kong no dia 2 de agosto de 2009, menos de um mês depois dos conflitos étnicos entre uigures e a maioria han que sacudiram a província de Xinjiang em julho, deixando pelo menos 197 pessoas mortas e 1.600 feridas.

A pesada punição gerou forte reação de grupos de defesa de direitos humanos e da liberdade de expressão, que a vêem como mais um sinal do acirramento da postura repressiva de Pequim. Em dezembro, o dissidente Liu Xiaobo recebeu a pena de 11 anos de prisão por defender reformas democráticas, a pluralidade partidária e a alternância no poder _uma crítica frontal ao monopólio exercido pelo Partido Comunista.

Niyaz foi condenado na sexta-feira sob a acusação de “ameaçar a segurança do Estado”, um conceito vago o bastante para incluir qualquer atividade que o Partido Comunista veja como um desafio a sua autoridade. O jornalista não era suspeito de ter participado dos confrontos, nos quais uigures atacaram cidadãos han nas ruas de Urumqi, capital de Xinjiang, na noite de 5 de julho de 2009 _um episódio que deixou evidente o grau de tensão étnica que marca a região.

Nos dias seguintes, grupos de chineses han armados de pedaços e de pau e ferro perseguiram uigures em busca de vingança.

Segundo o governo de Pequim, a maioria dos mortos nos conflitos pertencia à etnia han, à qual pertencem 92% da população do país. Na entrevista que concedeu à publicação Asia Weekly, Niyaz disse que havia alertado as autoridades de Xinjiang sobre o risco de violência na região, mas foi ignorado. O jornalista declarou ter dito a dois integrantes da administração local que “sangue” iria correr no dia 5 de julho.

A tensão na região havia se agravado depois que dois uigures morreram na província sulista de Guangdong durante uma briga com chineses han no dia 26 de junho de 2009. A comunidade uigur foi inundada por rumores segundo os quais o número de vítimas em Guangdong era muito superior ao divulgado e a suposta negligência das autoridades em investigar o caso esteve na origem da explosão de fúria em Xinjiang.

Niyaz, de 51 anos, escrevia para o site uighurbiz.net e está preso desde outubro. Segundo declarações de sua mulher veiculadas pelo portal, o jornalista reconheceu durante o julgamento ter dado a entrevista a um veículo estrangeiro, mas afirmou não ter tido intenção “maliciosa” e ter feito o que um cidadão ou um repórter deveriam fazer.

Depois de pouco mais de um mês no Brasil, voltei à China na semana passada. Peço desculpa aos leitores pela quase total ausência de posts nesse período, mas ele foi mais difícil do que eu esperava. Espero escrever com mais frequência a partir de agora.

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