Lágrimas genuínas por Kim Jong-il

Lágrimas genuínas por Kim Jong-il

Cláudia Trevisan

17 de abril de 2012 | 09h21

Quando Kim Jong-il morreu, em dezembro, o mundo foi surpreendido com imagens de norte-coreanos em um luto desesperado. Pessoas choravam compulsivamente, se atiravam no chão e gritavam, desconsoladas. As cenas se repetiram durante dias e muitos no Ocidente se perguntavam se as lágrimas eram genuínas ou resultado do temor de represálias do regime a quem não demonstrasse pesar suficientemente profundo.

Depois de uma semana na Coreia do Norte, eu me arrisco a dizer que as lágrimas eram genuínas. A família Kim tem um status quase divino no país e é venerada como responsável por tudo o que a população possui. Pai de Kim Jong-il e fundador do país, Kim Il-sung liderou a guerra contra a brutal ocupação japonesa, que durou de 1910 e 1945. Nesse período, os colonizadores adotaram uma política de supressão da cultura, da língua e da identidade coreanas. Os nomes coreanos foram abolidos, a língua local passou a ser o japonês e os coreanos tiveram que adotar a religião shintoísta do Japão. Terminada a Segunda Guerra Mundial, a Coreia foi dividida no paralelo 38 e Kim Il-sung passou a comandar o norte em 1948.

Idolatrado como pai pelos norte-coreanos e com status de semideus, ele é a principal fonte de legitimidade da dinastia comunista que chegou a sua terceira geração em dezembro, com a morte de Kim Jong-il e a chegada de seu filho Kim Jong-un ao poder. Para a população, as figuras dos líderes se confundem na imagem do fundador do país, cujo centenário foi celebrado no domingo. A figura de Kim Il-sung, por sua vez, se confunde com a própria ideia da nação norte-coreana, cuja existência é atribuída a ele. As mesmas qualidades são atribuídas aos três Kims: benevolência, dedicação extremada à população, espírito revolucionário e sabedoria ilimitada. Os norte-coreanos acreditam piamente que seus líderes têm conhecimento de tudo _seja estratégia militar, ciência, política, filosofia, criação de patos ou plantação de maçãs.

O vínculo com a família Kim é alimentado pela propaganda, a disciplina, a repressão e a estrutura social. A partir do início da adolescência, todos usam no peito botoms com as imagens de Kim Il-sung e Kim Jong-il. Nas casas e locais de trabalho, é obrigatório ter fotos dos dois líderes e o sistema educacional exalta as supostas qualidades excepcionais dos Kims. A informação é extremamente controlada e a maioria esmagadora dos norte-coreanos sabe muito pouco _ou nada_ sobre o que ocorre fora do país. A propaganda apresenta os Kim como os melhores líderes do mundo e usa um inesgotável repertório de adjetivos superlativos para se referir aos três.

Kim Il-sung tem status quase divino e é venerado como pai dos norte-coreanos, no que alguns sociólogos classificam como um sentimento religioso. O guia que me acompanhou na minha passagem pelo país tem 55 anos e não conteve as lágrimas quando perguntei como havia sido a morte de Kim Il-sung, ocorrida há 18 anos. “Foi muito duro, para mim e minha família”, disse.

O caráter fechado e militarizado da Coreia do Norte tem origem nas duas ideologias professadas por Kim Il-sung e Kim Jong-il: Juche e Songon. A primeira prega a autosuficência da Coreia do Norte, que deveria ser capaz de construir o país e desenvolver sua tecnologia com seus próprios recursos e capacidades _o contraponto máximo à globalizacão. O outro princípio é “o Exército em primeiro lugar”, que coloca o investimento nas Forças Armadas no topo das prioridades do país.

A população não paga impostos na Coreia do Norte, mas tem acesso à moradia, educação e assistência médica gratuitos, o que alimenta o caráter paternalista do regime. Muitos dos edifícios, fábricas e equipamentos públicos são apresentados como um “presente” dos Kim, ainda que tenham sido construídos com dinheiro do Estado, cuja receita do é decorrente das empresas estatais e de outros negócios controlados pelo governo.

O aniversário de Kim Il-sung é a principal data comemorativa da Coreia do Norte e é chamada de “Dia do Sol”. Nos dias que antecederam o centenário, a TV estatal transmitiu de maneira ininterrupta imagens históricas de Kim Il-sung, Kim Jong-il e Kim Jong-un, reforçando a ideia de continuidade entre os três integrantes do regime hereditário.

A adoração pela família ficou evidente em quatro manifestações de massa que presenciei desde que cheguei a Pyongyang, no dia 7 de abril. É importante dizer que a cidade concentra a elite norte-coreana, beneficiada por sua proximidade com o poder, e está distante da pobreza extrema do campo. Em todos os eventos, os participantes prometeram dar sua vida para defender Kim Jong-un, que assumiu o comando da potência nuclear com apenas 29 anos.

O primeiro evento foi a inauguração do mosaico com o rosto de Kim Jong-il colocado ao lado do de seu pai no centro da cidade. Cerca de 100 mil pessoas ocupavam a grande área em frente às imagens, carregando flores artificiais cor-de-rosa. Muitas ainda choravam a morte do líder que agora é “eterno”. No dia 11, o Partido dos Trabalhadores o nomeou como seu “eterno secretário-geral”. Dois dias mais tarde, ele se tornou o “eterno presidente” da Comissão Nacional de Defesa, organismo que está no topo da estrutura de poder do país.

Para acomodar os vivos e os mortos, os dirigentes decidiram criar novas denominações para os cargos de Kim Jong-un, que foi nomeado primeiro-secretário-geral do Partido dos Trabalhadores e primeiro-presidente da Comissão Nacional de Defesa.

O último megaevento ocorreu na noite do dia 16, quando cerca de 50 mil pessoas ocuparam a praça Kim Il-sung para dançar em homenagem a seu novo “comandante supremo”, Kim Jong-un, que não estava presente.

Aí algumas imagens do que vi:

Norte-coreana chora na inauguração de estátua de Kim Jong-il

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Norte-coreanos durante inauguração de estátua de Kim Jong-il

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Soldados participam de evento em homenagem a Kim Il-sung

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Militares e civis aplaudem Kim Jong-un (na tribuna) depois do defile militar que celebrou no centenário de seu avô, Kim Il-sung, no dia 15 de abril

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Estudantes comemoram nas ruas centenário de Kim Il-sung

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Norte-coreanos cantam canções revolucionárias à espera de show de fogos de artifício que celebrou centenário de Kim Il-sung

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Concerto em celebração ao centenário com a imagem de Kim Il-sung entre soldados; abaixo, Kim Jong-un e, em seguida, Kim Il-sung e Kim Jong-il

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Milhares de pessoas dançam na praça Kim Il-sung para celebrar a nomeação de Kim Jong-un aos cargos máximos de comando do país

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