Livre das urnas e fortalecido pela economia, Obama aposta no social

Cláudia Trevisan

21 de janeiro de 2015 | 18h21

Livre da ansiedade da urnas e com dois anos de mandato sob um Congresso de oposição, o presidente Barack Obama apresentou na terça-feira uma agenda essencialmente democrata, com a qual busca expandir as garantias sociais da classe média e distinguir os valores de seu partido da visão de Estado mínimo defendida pelos republicanos.

Em um cenário de crescente desigualdade de renda e insegurança econômica mesmo depois do fim da recessão, esses temas devem reverberar na disputa presidencial de 2016, para a qual os republicanos ainda não escolheram seu candidato. No discurso sobre o Estado da União realizado na noite de terça-feira, Obama propôs tirar US$ 320 bilhões dos muito ricos nos próximos dez anos para financiar isenções tributárias e programas de apoio à classe média e aos mais pobres.

O aumento da desigualdade é novo mal-estar da civilização americana, nostálgica das décadas do pós-guerra de prosperidade coletiva e fortalecimento da classe média. A intensidade do tema ficou evidente no sucesso do livro O Capital no Século 21, do francês Thomas Piketty, que frequenta a lista dos mais vendidos nos EUA desde o seu lançamento, em março.

Nele, o economista afirma que a tributação é um das formas efetivas de combate ao aumento da desigualdade e responsabiliza as políticas liberais de redução de impostos sobre os mais ricos pela ampliação da distância entre os que estão no topo e na base da pirâmide.

Em seu discurso, Obama propôs exatamente isso: usar impostos para redistribuir renda. É pouco provável que os republicanos aceitem a proposta, mas terão que dizer não diante de milhões de eleitores que veem os habitantes do planeta Wall Street embolsarem lucros estratosféricos.

Depois de seis anos de uma penosa recuperação, o presidente estava energizado pelos bons números da economia, que parece ter finalmente se firmado em uma rota de sólido crescimento. Sua aprovação cresceu desde a fragorosa derrota de seu partido para os republicanos nas eleições de meio de mandato de novembro, que deram à oposição o controle do Congresso.

Fortalecido pelos números, Obama não fez nenhuma referência à vitória dos republicanos e deixou claro que manterá a iniciativa. “Eu não tenho mais nenhuma campanha para disputar”, declarou. Quando alguns oposicionistas aplaudiram, ele deixou o script distribuído com antecedência e falou de improviso: “Eu sei porque eu ganhei as duas”, uma referência às disputas de 2008 e 2012, quando derrotou os republicanos John McCain e Mitt Romney, respectivamente.

A visão de Obama é próxima a de um Estado de Bem Estar Social, no qual os cidadãos não são deixados à sorte em questões como cuidado de filhos, educação, saúde e aposentadoria. “É o momento de parar de tratar de creches como uma questão secundária, ou como uma questão das mulheres, e passar a tratá-las como a prioridade econômica nacional que é para todos nós.”

As propostas incluem a permissão para que trabalhadores faltem ao trabalho –e sejam pagos- por até sete dias a cada ano por razões de saúde. “Nós somos o único país avançado da Terra que não garante licença-médica remunerada ou licença maternidade remunerada para nossos trabalhadores. Quarenta e três milhões de trabalhadores não têm licença remunerada.”

No comando do Congresso, os republicanos terão a responsabilidade de dizer o que pensam e de apresentar visões alternativas às de Obama. Mas, por enquanto, o presidente saiu na diante.