Magnatas da internet chinesa reverenciam Partido Comunista

Magnatas da internet chinesa reverenciam Partido Comunista

Cláudia Trevisan

10 de junho de 2011 | 09h43

A China tem a maior população de internautas do mundo _470 milhões_ e uma reserva de mercado levantada pela barreira da censura, em razão da qual sites como Facebook, Twitter e Youtube são inacessíveis no país. Nesse vácuo, empreendedores chineses criaram “clones” locais, muitos dos quais cresceram a ponto de entrar para o ranking das maiores empresas de internet do mundo. Apesar de todas serem companhias privadas, seus donos juram fidelidade ao Partido Comunista e compareceram em massa a um evento realizado dia 8 de junho para celebrar os 90 anos da organização.

Entre os 80 executivos do setor que participaram da “Gloriosa Excursão Vermelha” estava Li Yanghong, 42, o homem mais rico da China e fundador do site de buscas Baidu, a versão chinesa do Google. O Baidu está em sexto lugar no ranking dos sites mais visitados do mundo da consultoria Alexa, atrás de Google, Facebook, Youtube, Yahoo! e Live. Com uma fortuna de US$ 9,4 bilhões, Li é o que está de roupa caqui, sorridente e agitando uma bandeira vermelha na foto abaixo.

Outro que participou da celebração foi Cao Guowei, CEO da Sina, o principal portal de notícias e entretenimento, que abriga o clone chinês do Twitter, conhecido por Weibo (que significa microblog). Com 95% de seus usuários dentro da China, o Weibo deverá lançar um serviço em inglês para concorrer com o Twitter. Resta saber se usuários fora da China serão atraídos por um site tão intimamente relacionado ao Partido Comunista, cujo desprezo pela liberdade de expressão é notório.

O destino da peregrinação era o lugar onde em 1921 ocorreu o primeiro congresso da organização, em Xangai. Hoje, a antiga casa faz parte de um complexo de bares, restaurantes e lojas que estão entre os mais caros da cidade e são frequentados principalmente por estrangeiros e os emergentes chineses, em um dos inúmeros paradoxos do modelo comunista local.

Donos de empresas que estão sujeitas à estrita censura de Pequim, os milionários da internet chinesa não só aceitam as regras do jogo como reverenciam _pelo menos em público_ o Partido Comunista. Eles sabem que suas companhias podem ser fechadas sem aviso prévio, caso os mandarins comunistas considerem que elas ultrapassaram os limites oficiais do que pode ou não ser divulgado online _a demarcação desse território é fluida e é definida diariamente por orientações do Ministério da Propaganda para toda a mídia do país.

O evento também deixa claro que nenhum setor da economia da China está imune à influência e aos vínculos com o Partido Comunista. Abaixo estão algumas fotos da celebração divulgadas pela revista Caixin, uma das mais independentes da China. A seguir eu reproduzo reportagem que escrevi para o Estado sobre as gigantes da internet chinesa, pouco conhecidas no exterior, mas cujos nomes serão cada vez mais familiares.

O dono do Baidu, Li Yanghong (de caqui), e o CEO da Sina, Cao Guowei (à sua esquerda), na frente da casa onde ocorreu o primeiro congresso do Partido Comunista chinês

Foto coletiva dos executivos de internet no mesmo local

Clones chineses estão entre as maiores empresas da internet do mundo
Cláudia Trevisan
Correspondente
Pequim
O mapa luminoso da presença global do Facebook mostra uma mancha negra sobre a China, onde a mais célebre rede social da internet é bloqueada, assim como Youtube e Twitter. Mas isso não significa que a maior população online do planeta está fora do universo dos microblogs, games e redes virtuais de amigos.
Dentro da invisível Grande Muralha de Fogo levantada pela censura chinesa surgiram algumas das maiores empresas de internet do mundo, que começam a rivalizar com os originais que clonaram, tanto em valor de mercado quanto em número de usuários.
O serviço de mensagens instantâneas QQ tem apenas 5% de seus clientes fora da China, mas a audiência doméstica é suficiente para colocá-lo em 10? lugar no ranking dos sites mais visitados do mundo elaborado pela empresa de consultoria Alexa, uma posição acima do MSN da Microsoft.
Na origem do sucesso do QQ estão os 477 milhões de usuários da internet na China, quase o dobro dos 250 milhões existentes nos Estados Unidos. Em poucos anos, a população online do país asiático será o triplo da norte-americana, estima Duncan Clark, da empresa de consultoria BDA China. “O centro de gravidade da internet está mudando”, observa.
QQ é a face mais popular da Tencent, a maior companhia de internet da China e a terceira do mundo em valor de mercado, com US$ 52 bilhões, abaixo apenas do Google (US$171,2 bilhões) e Amazon (US$ 89,9 bilhões) _se o Facebook tivesse ações em Bolsa quase certamente estaria à frente da empresa chinesa.
O consultor Bill Bishop, editor do site Digichina, acredita que a internet representa o maior segmento da economia chinesa que não está nas mãos do Estado. Todas as líderes são empresas de capital privado com ações nas Bolsas de Valores de Nova York ou Hong Kong _nenhuma tem papeis negociados na China.
Entre as 12 representantes chinesas que apareceram na lista BrandZ das 100 marcas mais valiosas do mundo divulgada no início de maio, só duas não eram estatais: Baidu e Tencent, ambas do setor de internet.
Elaborado pela agência Millward Brown Group, o ranking estimou o valor da marca Baidu em US$ 22,56 bilhões, alta de 141% em relação ao ano anterior, o que elevou a grife chinesa ao segundo lugar entre as de mais rápido crescimento do planeta, atrás apenas do Facebook.
O vigor da internet também se reflete na lista dos chineses mais ricos elaborada pela Forbes. O primeiro lugar de 2011 é ocupado por Li Yanghong, 42, o fundador do Baidu. Também conhecido como Robin Li, ele é dono de uma fortuna de US$ 9,4 bilhões _o que o colocou em 95? lugar no ranking global da Forbes. O criador da Tencent, Ma Huateng, 39, aparece na 10ª posição entre os chineses endinheirados, com US$ 5 bilhões.
Idealizada para controlar a informação e barrar o que é considerado contrário aos interesses do Partido Comunista, a censura acabou funcionando como uma reserva de mercado, que permitiu o desenvolvimento dos sites chineses sem a ameaça de concorrência externa.
Mas a proteção não é o único fator que explica o sucesso de alguns deles. O Baidu já era o líder do mercado de buscas online antes de o Google decidir transferir para Hong Kong o seu site chinês, em março de 2010, em razão da intensificação da censura.
De qualquer maneira, a saída de campo de seu principal competir elevou a fatia de mercado do Baidu de pouco mais de 60% para cerca de 80%. Nesse mesmo período, o preço de suas ações na NASDAQ teve alta de quase 150%, o que jogou o valor de mercado da empresa para US$ 47,4 bilhões, mais que o dobro dos US$ 21,3 bilhões do Yahoo!.
O Baidu está em sexto lugar no ranking dos sites mais visitados do mundo da Alexa, atrás de Google, Facebook, Youtube, Yahoo! e Live.
Os campeões da internet chinesa só conseguiram prosperar porque se sujeitaram aos estritos limites estabelecidos pelo Partido Comunista, que os transformam em agentes executores da censura.
Os sites são responsáveis por impedir que cheguem a seus portais todas as informações vetadas pelas autoridades de Pequim. A lista do que é proibido tem temas permanentes, como independência do Tibete, e outros que mudam de acordo com as circunstâncias.
Diariamente, a relação do que está vetado é distribuída pelos censores de Pequim. Jasmim, nome do chá mais popular da China, foi banido desde que foi vinculado à Revolução do Jasmim que derrubou o governo da Tunísia em janeiro.
O agravamento da censura, a crescente dificuldade para atuar no país e o ataque de seu site por hackers foram os argumentos utilizados pelo Google para justificar a transferência de sua operação em chinês do continente para Hong Kong. Na China, o Google era obrigado a praticar a autocensura, como todos os demais sites registrados no país.
Diante da barreira à entrada de empresas estrangeiras no país, a compra de ações em Bolsa ou a aquisição de participação direta no capital das empresas chinesas se transformaram nos únicos caminhos pelos quais os investidores podem apostar no boom da internet na China. E muitos estão se jogando nesse mercado sem saber se serão salvos por uma rede de proteção.
O site de relacionamento Renren, a versão chinesa do Facebook, conseguiu levantar US$ US$ 743,4 milhões na Bolsa de Nova York no início deste mês, dez vezes mais o seu faturamento de 2010. As ações perderam 24% desde então, mas estão em patamar suficiente para dar à companhia um valor de mercado de US$ 5,4 bilhões. “O Renren é pequeno e isso certamente é uma bolha”, afirma Clark, da BDA.

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