Maoismo é nova vítima da censura chinesa

Cláudia Trevisan

20 de março de 2012 | 08h16

Não foi apenas Bo Xilai que caiu em desgraça dentro do Partido Comunista. A campanha de resgate de símbolos maoístas que ele liderou na megacidade de Chongqing _com ramificações no restante da China_ também foi abatida depois de seu afastamento, na semana passada. A censura bloqueou na internet todos os principais sites da “nova esquerda”, como Utopia e a Bandeira de Mao, enquanto moradores de Chongqing que costumavam se reunir em praças para cantar canções revolucionárias foram instruídos pela polícia a abandonar o hábito para não “incomodar” os vizinhos.
Bo Xilai perdeu o cargo de secretário-geral do Partido Comunista em Chongqing no dia 15 de março. Logo depois, um dos principais intelectuais da “nova esquerda”, Sima Nan, teve bloqueada sua conta no weibo, a versão local do twitter, que é inacessível dentro da China por causa da censura.
“Essa é uma questão de liberdade de expressão”, disse à Rádio Ásia Livre o advogado de Chongqing Zhen Jianwei. “Cantar canções revolucionárias e participar de demonstrações são maneiras de expressar opiniões”, ressaltou. Mas as autoridades de Pequim prezam pouco o respeito à liberdade de expressão, especialmente se ela é exercida por adversários de ocupantes do poder. A ironia é que a censura agora atinge músicas consagradas pelo próprio Partido Comunista e seu líder máximo, Mao Tsé-tung.
Depois da queda de Bo Xilai, a maior preocupação dos líderes em Pequim é consolidar uma imagem de unidade dentro do Partido, nos meses que antecedem o congresso da organização que consagrará a transferência do poder a uma nova geração no fim do ano. O ex-todo-poderoso de Chongqing estava em campanha aberta para entrar no clube de nove pessoas que representam o poder máximo na China, reunidas no Comitê Permanente do Politburo. Mas ele exagerou na dose de autopromoção, em um Partido que preza a discrição e o segredo, e foi agressivo demais na promoção do “modelo de Chongqing” e sua inspiração neomaoísta, que ecoa a Revolução Cultural (1966-1976) que Pequim gostaria de esquecer.

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