Morte de reféns ocidentais reacende debate sobre drones

Cláudia Trevisan

24 de abril de 2015 | 10h14

O líder da Al Qaeda, Ayman al-Zawahiri, já foi alvo de dois ataques fracassados de drones americanos, ambos em 2006. Nenhum deles o matou, mas 76 crianças e 26 adultos perderam suas vidas nas operações, segundo levantamento da entidade de defesa de direitos humanos Reprieve, sediada em Londres.

É impossível saber o número preciso de vítimas civis em razão do segredo que encobre as operações no Paquistão e Iemên. Com base em reportagens e dados públicos divulgados nos últimos dez anos, a entidade identificou ataques a 41 alvos perseguidos pelos EUA e concluiu que 1.147 pessoas morreram nas tentativas de atingi-los.

Nem sempre as ações resultaram na morte dos militantes, muitos dos quais foram objeto de múltiplos ataques. Operados por controle remoto a partir dos Estados Unidos, os drones começaram a ser usados no combate ao terrorismo em 2004. Mas foi no governo Barack Obama que eles passaram a ocupar um lugar central na estratégia de defesa americana. O Reprieve estima que pelo menos 500 ataques disparados à distância foram realizados desde a chegada do democrata ao poder, há seis anos.

A administração americana sustenta que os drones são o mais adequado instrumento para combater insurgentes em regiões perigosas e de difícil acesso do Paquistão, Iêmen e Afeganistão. O governo afirma ainda que a união da tecnologia aos dados coletados pelos serviços de inteligência permite que os ataques sejam precisos, o que reduziria a possibilidade de vítimas civis.

A revelação de que o americano Warren Weinstein e o italiano Giovanni Lo Porto morreram em uma ação antiterrorista dos EUA em janeiro abalou essa premissa ontem e reacendeu o debate sobre o uso de drones. Obama afirmou que a ação foi guiada por inteligência obtida em “centenas de horas” de vigilância, que não foi capaz de detectar a presença dos reféns no local.

Em 2013, a Anistia Internacional afirmou que os responsáveis pela morte de civis em alguns dos ataques com drones deveriam ser processados sob acusação de crimes de guerra. A entidade documentou vários casos com imagens de satélite e entrevistas, entre os quais o que resultou na morte de 17 trabalhadores no Paquistão em 2012.

“O governo dos Estados Unidos nunca revelou o número de pessoas mortas em ataques com drones. A administração sustenta que os ataques são precisos e que poucos civis foram mortos, mas nunca provou isso com evidências e dados específicos que possamos avaliar”, disse Naureen Shah, diretora do programa de Segurança e Direitos Humanos da Anistia Internacional.

O reconhecimento das mortes de Weinstein e Lo Porto foi uma das raras ocasiões em que Washington levantou o segredo que envolve os ataques com drones no Paquistão e no Iêmen e forneceu alguns poucos detalhes sobre as operações. Entidade de defesa dos direitos humanos criticaram Obama por admitir a morte acidental dos ocidentais e se recursar a reconhecer as centenas de vítimas civis dos drones que atingem moradores do Paquistão, Iêmen e Somália.

Na entrevista coletiva diária do porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest, ficou evidente que os mísseis nem sempre são disparados com o grau de precisão propagado pela Casa Branca. A CIA desconhecia a identidade das pessoas que estavam no complexo da Al Qaeda atingido na operação. Só nos dias seguintes à sua realização ficou claro que havia seis e não quatro indivíduos no lugar e que dois deles eram reféns ocidentais.

Outro problema para Obama foi a morte de dois americanos integrantes da Al Qaeda neste e em outro ataque realizado também em janeiro. As regras que regem o uso de drones determina que a determinação para que cidadãos do país sejam mortos só pode ser dada depois de revisão do seu caso pelo Departamento de Justiça –em uma tentativa de dar um verniz de “devido processo legal” a uma execução extrajudicial. Em nenhum dos dois casos isso foi realizado.