Moscou além do estrogonofe

Moscou além do estrogonofe

Cláudia Trevisan

25 de fevereiro de 2013 | 13h09

Ir a Moscou foi uma dessas experiências que subvertem as expectativas ou, para lembrar o grande Cazuza, dessas em que nossas ideias não correspondem aos fatos. Imaginava encontrar uma cidade sombria, de tecido social esgarçado, dominada por mafiosos e ainda em uma cambaleante recuperação da hecatombe que foi o fim da União Soviética. Muitos dos problemas continuam lá, mas a cidade tem uma vibração que reflete o aquecimento econômico e a expansão da classe média registrados nos anos posteriores a 2009, no auge da crise financeira global.

Sei que Moscou não é o retrato de toda a Rússia e que o ritmo de atividade é inferior ao esperado, mas a sensação é crescimento, mesmo sob as temperaturas negativas do inverno implacável. O país tem a maior renda per capita dos BRICS, o grupo ao qual também pertencem Brasil, Índia, China e África do Sul, e exibe a maior classe média em termos percentuais. Segundo o Sberbank, maior instituição financeira da Rússia, 55% da população do país são formados por pessoas com renda anual entre US$ 6.000 e US$ 15.000. O índice é de 30% no Brasil, 20% na China e 11% na Índia. A fatia da população com alto poder aquisitivo também é superior: 15% dos russos possuem renda anual acima de US$ 50.000, o triplo dos 5% registrados no Brasil _na China, o percentual é de 2% e, na Índia, de 1%.

A Rússia possui ainda uma população educada, com um índice de alfabetização de 99,6%, comparados a 88,6% no Brasil. O país cultiva sua herança cultural, o que é evidente nos concertos e nos nomes de praças, monumentos, cafés e restaurantes, que homenageiam ícones literários e musicais, como Tchaikovsky, Mayakovsky, Pushkin e Tchekhov, para mencionar só alguns nomes da exuberante criatividade russa.

Não estou fazendo uma apologia à Rússia de hoje. A máfia não acabou, os oligarcas e endinheirados continuam a ser os grandes beneficiados do abundante petróleo e a pobreza está longe de
desaparecer. A criminalidade continua a ser um problema, mas é bem menos mortal que a existente nas cidades brasileiras. Segundo o Escritório das Nações Unidas para Crimes e Drogas, houve 10,2 homicídios intencionais para cada grupo de 100 mil habitantes na Rússia em 2010, metade dos 21,0 registrados no Brasil no mesmo período. Ainda mais impressionante é o fato de que a proporção de assassinatos na Rússia vem caindo ano a ano desde 2004, quando estava em 18,9 (não há dados anteriores). O índice brasileiro diminuiu apenas de maneira marginal quando comparado aos 22,5 homicídios por 100 mil habitantes existentes em 2003.

Moscou não é uma cidade fácil para forasteiros. Os táxis são caríssimos e não têm taxímetro _tudo tem que ser negociado. Mas há uma saída: é só levantar a mão que um carro estaciona para fazer as vezes de táxi. O preço também tem de ser negociado, mas sai bem mais barato que os táxis com plaquinha no capô. O metrô é uma aventura, com os nomes das estações escritos em alfabeto cirílico _nada em alfabeto romano. Mas vale a pena pela beleza de algumas das estações.

Para quem quiser ler mais sobre a Rússia, aqui vão os

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minhas publicadas domingo no Estadão.

Abaixo, algumas fotos de Moscou.

A Catedral da Assunção, no Kremlin


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Catedral de São Basílio, na Praça Vermelha

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A Praça Vermelha

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Estação de metrô Praça da Revolução

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Estação de metrô Mayakovskaya

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