Mudança no câmbio chinês será lenta e gradual

Cláudia Trevisan

08 de abril de 2010 | 12h51

A China emitiu nos últimos três dias sinais de que poderá permitir em breve a valorização do yuan em relação ao dólar, abandonando a cotação fixa que vigora há quase dois anos. Mas qualquer movimento será tímido e gradual. O assunto foi discutido hoje em reunião entre o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner, e o vice-primeiro-ministro chinês Wang Qishan, responsáveis pelo Diálogo Estratégico Econômico entre os dois países. Geithner fez uma escala em Pequim na viagem de volta da Índia, onde estava em visita oficial.

A expectativa de mudança cambial levou os contratos futuros de yuan com prazo de 12 meses ao maior nível em 11 semanas. O valor projetado atingiu 6,6395 yuans por US$ 1,00, o que significa uma valorização de 2,9% em relação ao patamar atual.

A apreciação de 2,9% em um ano está bem distante do pelo menos 25% de apreciação que muitos congressistas norte-americanos consideram necessários para neutralizar o que consideram como vantagem indevida da China no comércio internacional.

Na terça-feira, o vice-diretor do Centro de Pesquisa em Desenvolvimento do Conselho de Estado, Ba Shusong, afirmou que a vinculação ao dólar em um patamar fixo foi uma medida transitória para enfrentar a crise financeira global e que o movimento de apreciação gradual seria retomado.

Segundo declarações de Ba divulgadas pelo Financial Times, as autoridades de Pequim deverão ampliar a banda na qual a moeda pode flutuar e permitir a sua apreciação lentamente. A China mudou seu regime de câmbio fixo em julho de 2005 e permitiu que o yuan valorizasse 20% em relação ao dólar até meados de 2008, quando interrompeu o movimento em razão da crise financeira global.

O primeiro indício de que a China pode estar pronta para mexer novamente no valor da moeda foi a decisão do Departamento do Tesouro norte-americano de adiar a divulgação de relatório que poderia classificar o país asiático de “manipulador do câmbio” _o que permitiria a imposição de barreiras na importação de produtos chineses para compensar a vantagem cambial.

O documento seria divulgado dia 15 de abril e o adiamento foi anunciado por Geithner no sábado, dois dias depois de os presidentes Barack Obama e Hu Jintao conversarem ao telefone durante uma hora. O recuo abriu caminho para Pequim manter as aparências e agir sem parecer que está cedendo à pressão externa, algo extremamente valorizado pelos dirigentes locais.

Geithner foi mais longe na terça-feira e declarou em entrevista a uma emissora de TV indiana que a decisão sobre a moeda é uma “escolha da China”. O secretário norte-americano ressaltou que a adoção de um regime de câmbio mais flexível atende aos próprios interesses do país asiático.

O adiamento da divulgação do relatório foi precedido da confirmação da presença de Hu Jintao na cúpula sobre segurança nuclear convocada por Obama para a próxima semana. Os dois presidentes terão encontro bilateral paralelo ao evento, no qual o norte-americano pretende levantar a questão da cotação do yuan.

“A administração vai continuara a pressionar a China a (…) definir o valor de sua moeda de uma maneira que seja mais baseada no mercado”, disse o secretário de imprensa da Casa Branca, Robert Gibbs nesta semana.

A maioria dos analistas espera que a China retome o movimento de apreciação do yuan em meados do ano, mas ninguém aposta em uma valorização expressiva no curto prazo. As previsões variam entre 4% e 6% até o fim de 2010. É pouco provável que uma apreciação nesse patamar neutralize as pressões dos congressistas norte-americanos para que o Tesouro tome providências em relação ao que consideram uma manipulação do câmbio para obtenção de vantagens comerciais, o que pode reacender o conflito entre os dois países.

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