Mujica e a Pasárgada dos Pampas

Cláudia Trevisan

16 Maio 2014 | 11h42

É impossível resistir a José Mujica, que é a versão política do papa Francisco. A retórica do presidente do Uruguai é de um humanismo radical, pontuada por odes à vida, ao amor e à simplicidade. O retrato que apresenta de seu país é um ideal bucólico de pequenos povoados e cidades de escala humana, nos quais os vizinhos se conhecem, onde se trabalha para viver e não se vive para trabalhar. Nessa Pasárgada dos Pampas, o quotidiano se desenrola no mesmo ritmo do fusca azul 78 que Mujica dirige sem a escolta de seguranças.

Mas atrás do romantismo está um presidente pragmático, que cultiva o capital e vê os investimentos domésticos e estrangeiros como a semente dos empregos do futuro . Sob seu governo, o Uruguai registrou crescimento médio anual de quase 6% e manteve a invejável posição de país latino-americano que possui a menor desigualdade social. Em 2010, a renda per capita uruguaia era de US$ 11,6 mil, ligeiramente superior aos US$ 11,1 mil do Brasil. No ano passado, os valores eram de US$ 16,6 mil e US$ 11,3 mil, respectivamente, o que colocou o Uruguai na liderança do ranking dos países mais ricos da região. A previsão do FMI para 2014 é que a renda per capita do Brasil cairá para US$ 11,1 mil, enquanto a do Uruguai continuará a crescer, para US$ 17,1 mil.

Ex-guerrilheiro, Mujica faz uma surpreendente defesa da globalização e do livre comércio. Lamenta que o processo de derrubada de barreiras promovido pela Organização Mundial do Comércio (OMC) tenha se estancado e critica a divisão do mundo em blocos econômicos. Em vez de discursos contra o imperialismo ianque, ele quer que todos os uruguaios falem inglês e pediu a Barack Obama que envie professores a o seu país.

Desde que ele chegou ao poder, em 2010, o Uruguai assumiu a vanguarda mundial das transformações sociais. O aborto foi legalizado em dezembro de 2012. Quatro meses mais tarde, o Congresso aprovou a lei do “matrimônio igualitário”, que equipara o casamento de homossexuais ao de heterossexuais. No dia 10 de dezembro de 2013, o Uruguai se tornar o primeiro país do mundo a regulamentar a produção, venda e consumo de maconha.

No primeiro ano de vigência da lei sobre o aborto, foram registrados 6.767 interrupções voluntárias da gravidez e nenhuma mulher morreu durante o procedimento. Proporcionalmente, o Uruguai tem uma das menores taxas de aborto do mundo, de 9 casos para cada grupo de 1.000 mulheres em idade fértil. É uma proporção bem inferior à média de 35 por cada grupo de 1.000 registrada na América Latina e à de 40 por 1.000 existente no próprio Uruguai entre 1995 e 2002.

Também é cerca de um terço da taxa registrada no Brasil, onde o aborto é proibido. Não há estatísticas oficiais, mas estudiosos estimam que 300 mulheres morrem no Brasil a cada ano vítima de abortos realizados em condições precárias. O Grupo de Estudos sobre o Aborto estima que são realizados 1 milhão de abortos no Brasil a cada ano e que complicações decorrentes do procedimento levam a 250 mil internações na rede do SUS.

Mujica atribui o protagonismo nessas questões à história de seu país, que foi o primeiro a reconhecer o direito do voto das mulheres, no início do século 20, período no qual a produção e comercialização do álcool foi nacionalizada e regulada pelo Estado. Quanto ao casamento gay, ele diz que o governo apenas reconheceu uma realidade tão antiga quanto à humanidade. “Nós descobrimos que há homens que dormem com homens e mulheres que dormem com mulheres”, ironiza.