Na eleição presidencial dos EUA, democratas de 2020 repetem republicanos de 2016

Comando do partido e congressistas moderados estão em pânico diante da possibilidade de Bernie Sanders ser o seu candidato à Casa Branca; o temor é que as propostas do senador coloquem em risco o controle da Câmara dos Deputados pela legenda

Cláudia Trevisan

27 de fevereiro de 2020 | 22h55

Quatro anos atrás, o establishment do Partido Republicano estava em panic mode diante da possibilidade de o populista Donald Trump conquistar a nomeação da legenda para a presidência dos Estados Unidos. Sua vitória foi facilitada pela fragmentação dos opositores, que preferiram se atacar entre si para conquistar a vaga do anti-Trump e acabaram naufragando. Hoje o Partido Republicano é o Partido de Trump.

O mesmo pânico atinge o comando do Partido Democrata, que vê seus candidatos mais moderados e tradicionais se digladiarem entre si enquanto Bernie Sanders amplia suas chances de vencer as primárias e disputar a Casa Branca em novembro. O cenário aterroriza muitos democratas históricos, que consideram as propostas do senador radicais e/ou irrealizáveis (a proposta de saúde pública para todos, por exemplo, custará US$ 30 trilhões em dez anos, o equivalente a uma vez e meia o PIB americano, de US$ 20 trilhões).

O temor é especialmente agudo entre membros do Congresso, que temem ver sua maioria na Câmara dos Deputados dizimada por uma candidatura Sanders, que também eliminaria qualquer esperança de o partido obter a maioria no Senado -perspectiva que é difícil em qualquer cenário. Para os que não são familiarizados com o sistema americano: cada partido realiza uma eleição interna, chamada “primárias”, para decidir quem será o seu candidato na eleição presidencial. As eleições são feitas Estado por Estado, em um período que, neste ano, vai de 3 de fevereiro a 6 de junho. Sanders venceu o voto popular nas três votações realizadas até agora: Iowa, New Hampshire e Nevada.

Em reportagem divulgada pela Associated Press na quinta-feira, 27, alguns deputados democratas alertaram para os riscos representados pela vitória de Sanders. Scott Peters, um dos líderes dos moderados, disse que eles acreditam que suas reeleições estarão comprometidas se o senador autodenominado socialista democrata for o adversário de Trump.

Em 2018, o partido ganhou 42 cadeiras na Câmara dos Deputados, o que lhe garantiu a maioria na Casa e permitiu a abertura do processo de impeachment contra o presidente. Desse total, 29 vitórias foram registradas em distritos nos quais Trump venceu ou perdeu por uma margem de 5 pontos percentuais ou menos em 2016. Ou seja, um perfil moderado. Para voltar a ter controle da Câmara, os republicanos precisam vencer 19 cadeiras (e manter as que possuem hoje).

Pesquisa encomendada pelo Partido Republicano em distritos nos quais eles disputarão votos com democratas mostrou que 53% dos eleitores têm uma imagem negativa de Sanders, comparados a 42% que o veem de maneira positiva.

Na semana passada, Sanders teve uma vitória avassaladora em Nevada, onde conquistou 47% dos votos, muito além do que as pesquisas previam. Os cinco dias entre a sexta-feira, 28 de fevereiro, e 3 de março serão cruciais para definir o futuro da disputa. A grande questão é se surgirá um nome claro para representar os moderados, que hoje estão dispersos entre o ex-presidente Joe Biden, o bilionário Michael Bloomberg, o ex-prefeito Pete Buttigieg e a senadora Amy Klobuchar.

Biden enfrentará um teste crucial no sábado, 29, quando terá de vencer a primária na Carolina do Sul para manter a viabilidade de sua campanha. O próximo teste será Super-Terça, 3 de março, o dia mais importante do processo, quando 14 Estados escolherão 34% dos delegados que participarão do Colégio Eleitoral.