“Não há lobos solitários no terrorismo. Todos estão conectados”

Cláudia Trevisan

17 de janeiro de 2015 | 11h19

Quando Gabriel Weimann começou a estudar o uso da internet pelo extremismo islâmico, em 1998, havia 12 sites “terroristas”. Hoje, ele monitora 9.800, além de uma atividade cada vez mais intensa nas mídias sociais globais. “Estamos nos movendo dos velhos dias em que grupos que se reuniam no deserto ou em acampamentos para o espaço cibernético, onde eles não se encontram, não se veem e tudo é feito online.”

Professor do Departamento de Comunicação da Universidade de Haifa, em Israel, Weimann lançará em março o livro Terrorism in Cyberspace: The Next Generation (Terrorismo no Espaço Cibernético: A Nova Geração), o terceiro de sua autoria sobre a relação entre grupos radicais islâmicos e o mundo virtual. A facilidade da difusão das mensagens e o caráter difuso da internet farão com que atentados como o visto em Paris no dia 7 se tornem mais frequentes, avaliou.

Segundo ele, não há “lobos solitários” na era do terrorismo online. Em todos os casos recentes que ele analisou, os autores deixaram traços digitais. Weimann esteve no Brasil há dois anos, para falar sobre os riscos de ataques no país. “O Brasil é um dos países menos protegidos contra o terrorismo do mundo.”

A seguir, trechos da entrevista ao Estado:

Qual a importância da internet para os grupos jihadistas?

A internet e as plataformas de comunicação online podem ser acessadas de qualquer lugar, são grátis, ninguém pode realmente censurá-las, é possível manter anonimato e usá-las para muitos objetivos: propaganda, recrutamento, ensinamentos e convocação de pessoas para a ação.

No tipo de plataforma multimídia, é possível fazer upload e download de textos, filmes, livros, instruções, palestras. Você pode se comunicar, coletar dinheiro, enviar dinheiro, encontrar informação, interagir com pessoas.

Quando grupos jihadistas começaram a usar a internet?

Nós começamos esse projeto em 1998, quando havia 12 sites terroristas. Hoje nós monitoramos 9.800. Depois do 11 de Setembro, o número subiu para centenas e depois milhares. Além dos sites tradicionais, eles usam fóruns,  chatrooms e mídias sociais, como Twitter, Facebook, YouTube, Instagram, tudo o que está online.

Como a internet se relaciona com o fenômeno do “lobo solitário”?

Não há lobos solitário no terrorismo. Todos os lobos solitários estão conectados a um texto, a um grupo e a maioria está conectada online. Muitos são radicalizados, recebem ensinamentos e instruções, e até são enviados para a ação online.

Nós analisamos todos os casos recentes dos chamados ‘lobos solitários’ e em todos nós encontramos traços deles online. Eles estavam se comunicando, fazendo o upload e download de informações online.

Qual é o papel da revista Inspire?

A Inspire tem como alvo a audiência ocidental, especialmente jovens muçulmanos que vivem na Europa e na América do Norte e que não falam árabe, mas sim inglês. É uma revista chique, moderna, chamativa, estilosa e bastante preocupante. Eles dão informações para radicalizar pessoas e ensinam como construir bombas.

Para dar um exemplo de sua eficácia, no ataque na Moratona de Boston em 2013, os irmãos Tsarnaev seguiram instruções da Inspire para construir a bomba com uma panela de pressão.

O líder da Al Qaeda Anwar Awlaki foi morto pelo EUA em um ataque com drone no Iêmen em 2011, mas sua influência permaneceu intacta. Qual o papel da internet nesse processo?

As suas mensagens radicais e seus ensinamentos internet. O cara (Amedy Coulibaly) que atacou o supermercado judeu em Paris colocou na internet um vídeo no qual ele citava Awlaki. Ele é muito influente, mas não é o único. Há muitas celebridades no mundo do terrorismo.

Cada grupo tem a sua celebridade. Em anos recentes na Al Qaeda é Ayman Al-Zawahiri (segundo a Al Qaeda na Península Arábica, ele ordenou o ataque contra a Charlie Hebdo). Outro é Adam Gadahn, um americano que se converteu ao islamismo, se radicalizou e se tornou o porta-voz da Al Qaeda para o inglês.

O aumento da presença de grupos radicais na internet levará a mais ataques semelhantes ao que vimos em Paris?

Eu temo que sim. Há um uso cada vez maior da internet para recrutar e radicalizar pessoas. Estamos no movendo dos velhos dias de grupos que se reuniam no deserto ou em acampamentos para o espaço cibernético, onde eles não se encontram, não se veem e tudo é feito online. O alvo para radicalização são populações enormes ao redor de todo o mundo, não apenas o Oriente Médio, mas a Europa, a América do Norte e o Brasil também.

Eles estão se movendo cada vez mais para a comunicação online. Mais do que isso, eles se tornaram mais sofisticados com o uso das mídias sociais, que são mais interativas, influentes, modernas e eficazes do que os sites tradicionais.

Por que o sr. mencionou o Brasil?

Fui ao Brasil dois anos fazer palestras sobre o potencial de o país ser atacado por terroristas, não porque o Brasil em si esteja envolvido em política e haja grupos interessados especificamente no Brasil. Mas o Brasil acabou de ter a Copa do Mundo e será sede dos Jogos Olímpicos e isso pode atrair os terroristas. Eles buscam publicidade e eventos que podem ganhar atenção mundial.

E o Brasil é um dos países menos protegidos contra o terrorismo do mundo. Certamente contra terrorismo cibernético, mas também o terrorismo convencional.

Eu fui para a tríplice fronteira, vi como é fácil cruzá-la. O Brasil não tem uma definição legal de terrorismo e uma célula da Al Qaeda foi encontrada em São Paulo (em 2009).

Como os governos podem se defender contra essa ameaça?

É necessário ser proativo e, em vez de reagir a eles, tentar prever quais serão as futuras plataformas e desenhá-las de maneira que impedirá que eles as utilizem. Além disso, tentar ser mais proativo no sentido de se dirigir à mesma população com mensagens contrárias, que não deixem os terroristas serem uma voz dominante nas mídias sociais.