O paradoxo da Nova Cidade Antiga de Datong, na China

O paradoxo da Nova Cidade Antiga de Datong, na China

Cláudia Trevisan

28 de agosto de 2012 | 06h28

Localizada na antiga Rota da Seda que ligava a China à Europa, Datong é celebre pelos monumentos históricos que se espalham em seu entorno e pela absoluta falta de atrativos do seu centro urbano, degradado, poluído e com poucos traços dos 2.000 anos de história que já se passaram no local. Na tentativa de mudar essa imagem, o governo lançou um plano megalomaníaco de construção de uma paradoxal “Nova Cidade Antiga”, cercada por uma muralha de 12 metros de altura e 12 quilômetros de extensão, semelhante à que foi derrubada depois da chegada ao poder do Partido Comunista, em 1949.

Tudo o que existia dentro dos muros está sendo destruído para dar lugar a uma réplica do que os idealizadores imaginam que era a cidade imperial existente no local até meados do século passado. O que parece antigo é novo e o que parece novo é antigo e fadado à destruição. O investimento é bilionário e ajuda a explicar o crescimento chinês nos últimos três anos e a expor os riscos trazidos pelas centenas de projetos semelhantes que se espalharam pela China a partir de 2008. Para nadar contra a maré da crise mundial e manter o crescimento, Pequim ordenou os governos locais a investirem em obras e os bancos a darem dinheiro para as construções.

A “Nova Cidade Antiga” de Datong está levando à demolição de 12 km de metros quadrados de construções e à realocação da população que vivia no local. Nos terrenos vazios, surgem reproduções de casas e lojas do período imperial, que chegou ao fim em 1911 com a Revolução Republicana. As construções incluem uma nova mesquita, no estilo que mistura elementos chineses e árabes, e a repaginação de um templo budista de 600 anos, que ficou irreconhecível depois de ser cercado por novas “alas”, nas quais o cheiro de tinta fresca ainda está no ar. Quando concluído, o local será um grande parque temático da China Imperial.

É uma ironia que o mesmo Partido Comunista que tentou exorcizar à força a “velha ordem” promova o renascimento da estética do antigo regime. A volta ao passado também é um oblíquo monumento à habilidade dos chineses de copiarem com perfeição o que já existe ou existiu _cujo contraponto é a dificuldade de inovação.

Não é fácil entender qual a lógica econômica da “Nova Cidade Antiga” e como o investimento será recuperado. São US$ 7,5 bilhões, valor suficiente para bancar mais da metade da construção do trem bala brasileiro. A mesma dúvida existe em relação a inúmeras obras realizadas nos últimos três anos com o principal objetivo de manter as taxas de crescimento nas alturas. Questões como retorno financeiro e racionalidade econômica foram ignoradas. O boom de construções que evitou a desaceleração da China foi financiado por uma explosão de empréstimos bancárias, parte dos quais dificilmente será recuperada.

No período de janeiro de 2009 a dezembro de 2011, os bancos chineses concederam novos financiamentos no valor de 25 trilhões de yuans (US$ 3,93 trilhões ou R$ 7,96 trilhões), o que supera todo o PIB brasileiro no ano passado, de US$ 2,5 trilhões, e representa mais da metade do PIB chinês de 47 trilhões de yuans em 2011.

Da muralha da “Nova Cidade Antiga” é possível ver as dezenas de torres que se erguem no autêntico novo centro de Datong. Grande parte dos apartamentos já concluídos continua vazia, mas isso não impede que outros projetos sejam iniciados. O importante é manter a bicicleta andando. O problema é que quando ela parar, o tombo pode ser grande.
Aí vão algumas fotos de Datong:

A recém-construída muralha

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Edifícios e casas que serão demolidos

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Uma das “fronteiras” entre a velha/nova cidade (à esq.) e a “Nova Cidade Antiga” (à dir.)

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Construção nova (ao fundo) e escombros de demolições

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Edifícios que serão demolidos para dar lugar às construções “antigas”

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O novo templo budista; ao fundo, edifício em demolição

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A praça central da “Nova Cidade Antiga”

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