Nova Guerra Fria entre Estados Unidos e China terá impacto mundial e afetará globalização

Marcada pela complementariedade nos últimos 40 anos, a mais importante relação bilateral do Século 21 entrou em uma fase de competição, na qual Washington e Pequim disputam o domínio das tecnologias que dominarão a economia mundial nas próximas décadas. EUA se perguntam se erraram em sua avaliação sobre a China

Cláudia Trevisan

19 de novembro de 2018 | 00h09

Depois de sete décadas de Pax Americana, o mundo passa por uma transformação radical, que promete redesenhar a arquitetura global estabelecida sob a liderança de Washington depois da Segunda Guerra Mundial. No centro desse movimento está a crescente tensão entre as duas maiores economias do planeta: a atual potência global, os Estados Unidos, e a potência emergente, a China, cujo PIB deverá superar o americano antes de 2030. Marcada pela complementariedade nos últimos 40 anos, a mais importante relação bilateral do Século 21 entrou em uma fase de competição, na qual Washington e Pequim disputam o domínio das tecnologias que dominarão a economia mundial nas próximas décadas.

Se não acomodarem suas diferenças, os dois países devem embarcar em uma nova Guerra Fria, com impactos imponderáveis sobre a globalização e o crescimento mundial. O risco de um conflito armado é considerado o maior desde a normalização das relações, em 1979, e ambos os lados avaliam suas capacidades militares diante do potencial inimigo. Enquanto a Guerra Fria entre os EUA e a União Soviética contrapôs duas zonas de influência separadas pela Cortina de Ferro, sua nova versão envolveria dois países que desenvolveram uma profunda interdependência ao longo das últimas quatro décadas, com integração de cadeias de produção, comércio e fluxos financeiros.

Os EUA são o principal destino das exportações da China, com uma fatia de 20%, e grande parte desses embarques é de produtos fabricados no país asiático por empresas americanas. Na mão contrária, a China é o maior credor externo dos Estados Unidos e tem uma montanha de US$ 1,15 trilhão em títulos do Tesouro americano.

Mas o componente ideológico está cada vez mais presente na percepção que um país tem do outro. Desde sua chegada ao poder, em 2012, Xi Jinping vitaminou o autoritarismo chinês, restabeleceu o controle do Partido Comunista sobre virtualmente todas as dimensões da sociedade e privilegiou as empresas estatais no desenvolvimento econômico. Donald Trump, que está na Casa Branca desde 2017, se cercou de assessores que demonizam a China, professam a necessidade de conter sua ascensão e deixam pouco espaço para acomodação.

“Os EUA erraram em sua avaliação da China?” é uma das perguntas que dominam o debate acadêmico sobre a relação bilateral. O engajamento de Washington com Pequim era em parte baseado na expectativa de que a adoção de regras de mercado e a integração da China à economia mundial levariam inevitavelmente a uma maior abertura política. Apesar de isso não ter acontecido, alguns analistas sustentam que a virada autoritária de Xi Jinping é reflexo de seu estilo de liderança e não deve pautar políticas de longo prazo dos EUA. O problema é que Xi acaba de mudar a Constituição chinesa para garantir sua permanência no poder por tempo indeterminado. Em consequência, um número crescente de especialistas argumenta que os pressupostos que guiaram o engajamento americano com a China nos últimos 40 anos sofreram mudanças fundamentais, o que deve levar ao abandono da cooperação/acomodação que marcou grande parte da relação bilateral até a chegada de Trump à Casa Branca.

Também é cada vez maior o número de observadores que responde “sim” a outra das perguntas que pululam nos meios acadêmicos: “Há uma incompatibilidade fundamental entre os interesses de longo prazo dos EUA e da China?” No fim do mês, Trump e Xi se encontrarão durante a reunião do G20 na Argentina e tentarão resolver a guerra comercial iniciada pelos americanos com a imposição de tarifas sobre cerca de metade de suas importações da China. Ainda que cheguem a um acordo, isso não resolverá aspectos fundamentais da competição global entre os dois países. A capacidade de ambos os lados administrarem suas diferenças será crucial para a estabilidade global a partir de agora.

Com fortes laços comerciais e de investimentos com a China e os EUA, o Brasil estará no fogo cruzado dessa disputa. O país não tem nada a ganhar com o alinhamento a um dos lados e deve pautar suas decisões com base no interesse nacional -e não em questões ideológicas.

A dinâmica Washington-Pequim será um dos principais elementos do “Mundo em Desalinho” que dá título a esse blog e deverá ser objeto da maioria dos posts que escreverei. Devo abordar outras questões internacionais, como o programa nuclear da Coreia do Norte, o impacto da China sobre seus vizinhos asiáticos, o relacionamento dos EUA com a América Latina e questões domésticas das duas maiores economias do mundo. Em menor escala, também pretendo escrever sobre o Brasil. Espero que vocês me acompanhem nessa jornada!