O abismo entre chineses han e tibetanos

Cláudia Trevisan

22 de abril de 2010 | 06h02

O terremoto que atingiu a província de Qinghai no dia 14 de abril deixou evidente o abismo cultural que separa os chineses han, que governam o país, e os tibetanos, que integram a maioria da população na área atingida pelo tremor. O mais profundo desses abismos diz respeito à religião e à importância dela na vida cotidiana dos tibetanos. As autoridades chinesas vêem esse traço com profunda desconfiança, não só porque pertencem ao Partido Comunista, no qual só são aceitos os que se declaram ateus.

Mesmo exilado na Índia desde 1959, o dalai lama continua a ser o principal líder espiritual dos tibetanos e só perderá essa posição quando morrer e for substituído por outro dalai lama. Pequim acusa o líder religioso de separatismo e proíbe qualquer manifestação pública de simpatia a ele dentro de seu território. A suspeição das autoridades chinesas em relação budismo tibetano se manifestou nesta semana com a ordem para que monges que socorreram as vítimas do terremoto deixassem a área atingida e voltassem para seus monastérios.

Os religiosos chegaram ao local antes dos soldados do Exército de Libertação Popular e foram fundamentais na ajuda aos feridos e desabrigados.

Depois, quando as famílias contavam seus mortos, os monges realizaram os funerais, que são uma das mais importantes cerimônias para os budistas tibetanos _a crença é de que eles ajudam a alma a se libertar do corpo e seguir para sua próxima reencarnação. O Partido Comunista exerce controle estrito sobre as atividades dos monges, que são vistos como leais ao dalai lama. Há representantes da organização dentro dos monastérios e os religiosos são periodicamente submetidos a campanhas de “reeducação”, nas quais são obrigados a renegar o dalai lama.

Mas os monges desempenham um papel extremamente relevante como guias e mentores espirituais dos tibetanos. Só na cidade onde está a vila atingida pelo terremoto existem quase 200 templos, nos quais vivem milhares de monges.

Outro abismo é linguístico. A maior parte dos integrantes das equipes médicas e de resgate enviadas ao local é formada por chineses han, que não falam tibetano, enquanto quase todas as vítimas são tibetanos que não falam mandarim. Os han representam 92% da população chinesa e estão concentrados principalmente no centro-leste do país. Os 5,4 milhões de tibetanos que vivem na China estão na região oeste _metade no Tibete e metade em vilas e cidades tibetanas espalhadas nas províncias de Qinghai, Sichuan, Gansu, Yunnan e Xinjiang.

Historicamente, os han se desenvolveram ao redor da agricultura e do cultivo da terra, enquanto os tibetanos tiveram _e têm_ uma vida nômade, na busca de pastagens para seus rebanhos de ovelhas e yaks. Na política de desenvolvimento do oeste adotada nos últimos anos, o governo chinês busca que os tibetanos se fixem em comunidades e deixem a vida nômade. Mas para muitos deles, isso é abandonar sua própria identidade cultural.

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