O americano que amava a revolução chinesa

O americano que amava a revolução chinesa

Cláudia Trevisan

13 de novembro de 2012 | 10h54

Sidney Rittenberg é um desses personagens cuja trajetória pode ser lida como o roteiro de um épico hollywoodiano. Primeiro norte-americano a se filiar ao Partido Comunista da China, em 1946, ele participou do último estágio da guerra que levou à vitória de Mao Tsé-tung em 1949, foi um entusiasta da Revolução Cultural (1966-1976) e amargou quase 16 anos na mais célebre prisão política de Pequim, a maior parte dos quais em uma solitária.

A primeira de suas duas detenções ocorreu em 1949, quando ele viajava à capital chinesa para celebrar a vitória dos comunistas sobre os nacionalistas. Acusado por Joseph Stalin de ser um espião dos Estados Unidos, Rittenberg terminou na prisão, de onde só sairia em 1955, depois da morte do ditador soviético.

O gringo revolucionário havia chegado à China em 1944, como soldado dos Estados Unidos _nos dois anos anteriores, ele havia estudado chinês em uma academia do Exército. Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, Rittenberg decidiu permanecer na China como integrante do programa das Nações Unidas de combate à fome. O país estava imerso no caos e na pobreza, dirigido por um governo nacionalista incompetente e corrupto.

Nos Estados Unidos, Rittenberg havia atuado como organizador sindical e sido filiado ao Partido Comunista. Na China, ele acabou entrando em contato com os líderes revolucionários na principal base comunista da época, Yan’an, onde Mao Tsé-tung e seus companheiros de armas viviam em casas escavadas nas montanhas de terra arenosa. Rittenberg decidiu abraçar a história quando ela cruzou seu caminho e aceitou o convite para ficar em Yan’an e construir uma “ponte” entre os comunistas chineses e os norte-americanos. Mas impôs uma condição: ser aceito como membro do partido.

No recém-lançado documentário The Revolutionary, dirigido pelo norte-americano Irv Drasnin, Rittenberg narra o primeiro encontro com Mao Tsé-tung como a visão de uma “fotografia saída da história”. Segundo o norte-americano, o líder que ele conheceu em Yan’an era um ouvinte atento que desejava uma sociedade democrática e pluralista, bem diferente do ditador megalomaníaco que ele reencontraria nos anos 60.

Mas a arrogância de Mao depois da conquista do poder não impediu Rittenberg de se tornar um inflamado participante da Revolução Cultural, que ele vê hoje como uma versão chinesa do Holocausto. O movimento esgarçou o tecido social do país ao máximo, com o enfrentamento violento entre diferentes grupos e a morte de milhões de pessoas nas mãos dos Guardas Vermelhos.

Na irracionalidade que tomou contra da China, quase ninguém estava a salvo e Rittenberg acabou preso em 1968, junto com outros estrangeiros que viviam no país, supostamente por criticar aspectos do Partido Comunista. Sua mulher, a chinesa Wang Yulin, foi enviada a um campo de trabalhos forçados, onde ficou por três anos. Ele só seria libertado em 1977, no ano seguinte à morte de Mao. O sinal de que sua prisão estava chegando ao fim veio em outubro de 1976, quando a viúva de Mao, Jiang Qing, passou a ocupar uma cela na mesma detenção, em razão dos crimes cometidos durante a Revolução Cultural pelo seu Bando dos Quatro. “Quando ela entrou, eu tive certeza de que logo sairia.”

Aí vão algumas fotos:

Mao Tsé-tung autografa o seu Livro Vermelho para Sidney Rittenberg no portão diante da praça Tiananmen

A casa onde Mao Tsé-tung vivia na base comunista de Yan’an

O interior da casa onde vivia Zhou Enlai, o primeiro premiê da República Popular da China; as casas de Yan’an eram escavadas nas montanhas da região

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