O ano que os líderes chineses gostariam de esquecer

Cláudia Trevisan

29 de outubro de 2012 | 12h22

2012 é o ano que os líderes chineses seguramente gostariam de apagar do calendário. Poucos períodos recentes viram uma torrente tão grande de escândalos desabar sobre a cúpula do Partido Comunista, com efeitos devastadores sobre sua já reduzida autoridade moral. Não bastasse o efeito corrosivo da corrupção e dos privilégios da casta governante, o modelo econômico que transformou o país na segunda maior economia do mundo começa a dar sinais de esgotamento. O crescimento do PIB em 2012 deverá ficar em torno de 7,5%, o mais baixo índice desde 1990.

A mais recente revelação, feita sexta-feira pelo The New York Times, atingiu o primeiro-ministro Wen Jiabao, o dirigente que possui o que pode ser considerado como o mais próximo de “carisma” na cúpula governante. Fruto de um ano de investigação e baseada em documentos de empresas e órgãos de regulação, a reportagem sustenta que a família do premiê acumulou uma fortuna de US$ 2,7 bilhões desde 1992. O enriquecimento se acelerou de maneira visível a partir de 1998, quando Wen se tornou vice-primeiro-ministro da China _ele ocupa o cargo atual desde 2003.

O jornal mostra que as conexões com o governo e o partido ajudaram sua família a expandir negócios em áreas tão distintas quanto o comércio de joias, seguros, resorts, telecomunicações e projetos de infraestrutura. O NYT diz que não há nada em nome de Wen, mas a fortuna detida entre outros por sua mulher, mãe, filho e cunhado seria suficiente para colocar o grupo no 443º na lista dos mais ricos do mundo da Forbes. No domingo, dois advogados que dizem representar a família do premiê publicaram nota na qual refutam as afirmações do jornal. “As chamadas ‘riquezas ocultas’ de membros da família de Wen Jiabao mencionadas na reportagem do New York Times não existem”, afirmaram.

Antes do primeiro-ministro, o futuro dirigente máximo da China, Xi Jinping, havia sido alvo de uma investigação da agência de notícias Bloomberg, que descobriu investimentos do valor de US$ 400 milhões de pessoas integrantes de sua família. De novo, não havia nada no nome de Xi. Os dois veículos estão sendo punidos pelas autoridades chinesas. O site da Bloomberg está bloqueado há quatro meses e o do NYT, desde sexta-feira, quando a reportagem foi publicada.

O ano começou com a revelação de um caso explícito de corrupção pelas próprias autoridades chinesas, que decidiram afastar em fevereiro o então ministro das Ferrovias, Liu Zhijun, que ocupava o cargo desde 2003. Nesse período de quase dez anos, ele comandou o multibilionário processo de expansão da rede de trens de alta velocidade na China e embolsou propinas estimadas em 1 bilhão de yuans (R$ 324,7 milhões).

Em março, poucas semanas depois da queda do ministro, foi a vez de Bo Xilai perder seu cargo e ver sua ascensão política chegar ao fim. O então líder da megacidade de Chongqing, começou a cair em desgraça em fevereiro, quando o seu ex-braço direito Wang Lijun se refugiou no Consulado dos Estados Unidos em Chengdu. Lá ele entregou a diplomatas norte-americanos provas que implicavam a mulher de Bo no assassinato do empresário britânico Neil Heywood, que apareceu morto em um hotel de Chongqing em novembro. Bo foi expulso do partido e aguarda julgamento sob acusação de corrupção e abuso de poder.

O presidente Hu Jintao também foi atingido de maneira indireta por escândalos no início de setembro, quando veio à tona a informação de que o filho de seu chefe de gabinete havia morrido em um acidente com uma Ferrari em março. Funcionários públicos na China têm salário anual de alguns poucos milhares de dólares e seria impossível para o assessor de Hu obter de maneira legítima os recursos para comprar uma Ferrari para seu filho de 23 anos.

Na época do acidente, a censura bloqueou referências ao fato na imprensa e na internet, levantando a suspeita de que a vítima seria filho de alguém da cúpula do partido. A informação só foi revelada em setembro, quando o chefe de gabinete de Hu perdeu o cargo.

O sinólogo Kerry Brown, diretor-executivo do China Studies Center da Universidade de Sidney, disse em

Documento

publicada hoje no Estado que há um crescente grau de cinismo em relação à elite dirigente na sociedade chinesa. “Se o partido não pode governar a si próprio e conduzir seus atos de acordo com regras transparentes, que direito ele tem de comandar a sociedade?”, perguntou.

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