O ativista cego e a violência do Estado chinês

O ativista cego e a violência do Estado chinês

Cláudia Trevisan

29 de abril de 2012 | 08h49

É difícil encontrar um caso que traduza de maneira tão dramática a inexistência do Estado de Direito na China quanto o de Chen Guangcheng, o ativista cego mantido encarcerado em sua casa durante os últimos 19 meses, vigiado dia e noite por uma legião de capangas pagos pelos líderes locais do Partido Comunista, até fugir de maneira espetacular no último dia 22. A detenção não era fruto de uma condenação judicial nem se baseava em qualquer dispositivo legal. Chen estava preso por ser inconveniente em sua defesa de outras vítimas de abusos de poder, entre as quais mulheres obrigadas a abortar e a realizar operações de esterilização em nome da política de filho único. Sua mulher, Yuan Weijing, que nunca foi acusada de nenhum crime, também estava confinada com seu marido. A filha de 6 anos do casal ficou meses sem poder frequentar a escola. Quando foi autorizada a sair de casa, passou a ser acompanhada o tempo todo por policiais à paisana.

A família foi vítima de agressões físicas, danos materiais e tortura psicológica, sem que nenhuma autoridade do governo central se dignasse a intervir no caso. A mulher de Chen foi espancada até ficar inconsciente e teve ossos da face quebrados. O ativista ficou na cama durante dias para se recuperar das agressões. Chen havia sido condenado em 2006 a quatro anos e três meses de prisão sob a acusação ridícula de “reunir uma multidão para atrapalhar o trânsito”. Na época em que os fatos teriam ocorrido ele era mantido em sua casa, na sua primeira prisão domiciliar. Como todos os julgamentos de caráter político na China, não lhe foi garantido o direito de defesa e o processo se desenrolou sem nenhuma transparência.

Chen cumpriu a pena até o fim, mas não ganhou a liberdade e foi colocado em outra prisão, sua própria casa, isolado do mundo exterior. Sua espetacular fuga e a busca de abrigo na Embaixada dos Estados Unidos revelam a ausência de canais confiáveis para receber as demandas dos que se sentem injustiçados por abusos de poder. As vozes dissidentes da China são sufocadas, até que não encontram outra expressão além de um grito desesperado.

A desconfiança em relação ao Estado chinês não se restringe aos dissidentes e críticos do regime. Wang Lijun, o ex-braço direito do ex-todo-poderoso chefe do Partido Comunista em Chongqing, Bo Xilai, também se refugiou em uma representação diplomática dos Estados Unidos quando se convenceu de que sua vida estava em perigo. “Só há um lugar 100% seguro na China, a Embaixada dos Estados Unidos”, disse Hu Jia, ativista que já ficou três anos e meio na prisão sob acusação de subversão, mas não abandonou a crítica ao governo chinês.

Hu Jia foi um dos integrantes da rede subterrânea que ajudou Chen Guangcheng a fugir. O ativista aproveitou segundos de distração dos guardas para pular o muro de sua casa e caminhou durante horas na noite sem lua. A escuridão é constante na vida de Chen, cego desde a infância. Na caminhada que durou horas, ele caiu dezenas de vezes, atravessou obstáculos, cruzou um rio, até se encontrar, molhado e ferido na perna, com He Peirong, uma chinesa de sorriso luminoso que liderava havia mais de um ano uma campanha por sua libertação. Guo Yushan também ajudou a levar o ativista a Pequim, onde ele passou alguns dias em casas de diferentes pessoas antes de ser colocado sob a proteção de autoridades dos Estados Unidos. Agora, He, Guo e Hu Jia estão detidos. Como Chen Guangcheng era mantido em prisão domiciliar sem base legal, é difícil saber de que crime serão acusados, caso as autoridades queiram dar um verniz de legalidade a seu confinamento.

Abaixo estão fotos de alguns dos “perigosos subversivos” temidos pela segunda maior economia do mundo:

He Peirong, que liderou campanha pela libertação de Chen Guangcheng e ajudou o ativista a fugir da prisão domiciliar

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Chen Guangcheng e o ativista e amigo Hu Jia, em foto tirada na semana passada em Pequim

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