O Brasil e o desafio chinês

Cláudia Trevisan

21 de fevereiro de 2010 | 06h59

O Brasil precisa desenvolver uma estratégia de relacionamento com a China, se não quiser se tornar uma neocolonia cujo papel é fornecer as matérias-primas que o país asiático demanda com voracidade crescente. O alerta foi feito em

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que realizei com o especialista em China David Shambaugh, da George Washington University, publicada hoje no Estadão.

A China representa de longe o maior desafio para o futuro econômico do Brasil e requer uma estratégia não apenas para a relação bilateral, mas para nossa inserção global. No sábado, o Estadão publicou

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do correspondente em Genebra, Jamil Chade, sobre as recomendações de um grupo de economistas liderados por Joseph Stiglitz para os países em desenvolvimento que têm aspiração de um dia se tornarem desenvolvidos. 

O conselho é óbvio: a agricultura e a exploração de recursos naturais não vão provocar essa mudança. É só pensar no tipo de emprego que esses setores oferecem e no perfil de trabalhadores que demandam. A recomendação do grupo é a de que os países em desenvolvimento invistam em tecnologia e busquem espaços nos quais possam competir com a China.

Isso não significa que o Brasil deixará de exportar produtos agrícolas, minério de ferro e petróleo, áreas nas quais é competitivo. Mas o risco é que o sucesso nessas áreas acabe enfraquecendo a indústria nacional e comprometendo esforços no desenvolvimento de outros setores. Afinal, a China foi o principal destino das exportações brasileiras no ano passado. Reclamar por quê? O fato é que 73% dos US$ 20,2 bilhões que o Brasil vendeu aos chineses no ano passado eram representados por três produtos: minério de ferro, soja e petróleo.

O grupo liderado por Stiglitz , prêmio Nobel de Economia, concluiu que o Brasil precisa de mais “Embraers”, empresas nacionais de alta tecnologia capazes de competir globalmente. A questão é como fazer isso. Há uma antiga discussão sobre o tipo de política industrial que o Brasil deveria adotar e que opõe incentivos horizontais, para todos os setores, ou específicos para segmentos escolhidos como prioritários. A crítica à eleição de determinados segmentos é a de que o Estado estará escolhendo os “vencedores” e, no fim, beneficiando determinadas empresas em detrimento de outras.

Apesar das objeções, me parece cada vez mais inescapável a aposta em certos segmentos que o país considera estratégicos. Também é relevante o empenho no desenvolvimento de companhias genuinamente nacionais, que tenham capacidade de competir globalmente.

A China tem uma estratégica clara de inserção global e tem sido extremamente agressiva na defesa das empresas nacionais que o Estado considera “campeãs” _que são as apostas para a projeção econômica global do país. Além disso, Pequim mudou as regras de atração de investimento estrangeiro direto e deixou de conceder incentivos para os destinados à manufatura barata, como roupas, brinquedos e calçados. Desde 2006, o alvo dos incentivos são inventimentos em alta tecnologia. Com isso, a China quer subir na escala de valor agregado.

Na América Latina, um dos poucos países que não exporta commodities para a China é a Costa Rica, que em 1996 conseguiu atrair um investimento de US$ 300 milhões da fabricante de chips Intel _que quase instalou essa fábrica no Brasil. Hoje a Costa Rica vende chips para a China e tem superávit no comércio com o país asiático.

Talvez o Brasil tenha algo a aprender com a própria estratégia chinesa de planejamento de longo prazo, escolhas estratégicas e defesa de seus interesses nacionais.

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