O corpo fala

Cláudia Trevisan

27 de junho de 2010 | 13h22

Trombose é uma palavra que só havia frequentado meu vocabulário existencial de maneira indireta, depois de ter atingido no passado minha avó e meu pai, que se recuperaram bem. Na segunda-feira, isso mudou. Eu estava no nono dia de recuperação de uma cirurgia para correção de um problema no maxilar e acordei com uma dor aguda na panturrilha direita. Imaginei que fosse uma câimbra e cumpri a agenda que havia programado para o dia: realização de radiografias da face, visita ao cirurgião dentistsa que me operou e consulta com uma fonoaudióloga. A perna que doía estava exatamente igual à outra, sem rouxidão ou inchaço. Mas ao longo do dia, a dor foi se tornando cada vez mais aguda e persistente, até o momento em que me convenci de que havia algo de errado comigo.

Tomei um táxi e pedi para ir ao mesmo hospital onde realizei a cirurgia. Entrei no pronto socorro aos prantos, em razão da dor e do medo de realmente estar tendo uma trombose, o que me parecia aterrorizante. O nome aumenta a carga dramática da condição e eu imaginava estar acolhendo um desastre da natureza dentro do meu organismo. Um TROMBO, algo como um tsunami ou um terremoto em escala miniaturizada.

Chorei quase sem parar nas horas em que fiquei no pronto socorro, que foram muitas. O médico que me atendeu foi ótimo e pediu exame de sangue, ultrassonografia e receitou uma medicação intravenosa para a dor, chamada tilatil. Quando ela entrou na minha corrente sanguínea, minha pressão despencou, tive uma dificuldade enorme de respirar e comecei a ver tudo quase branco, como se estivesse no filme “Ensaio sobre a Cegueira”, de Fernando Meirelles, baseado no livro de José Saramago. Claro que chorei ainda mais depois de me recuperar da sensação de que estava morrendo.

Finalmente fui ao ultrassom, tentando me convencer de que tinha só uma câimbra e de que estava fazendo uma cena vergonhosa por nada. Mas não conseguia parar de chorar. Só me contive durante o exame, que me acalmou em razão da esperança de que uma investigação científica descartaria qualquer conteúdo malígno da dor que sentia. Quando acabou, perguntei: “Tudo bem?”. O médico respondeu: “Não” _silêncio_ “Você realmente tem uma trombose”. Em seguida tentou me acalmar, dizendo que a veia atingida era pequena e que minha condição poderia ser facilmente tratada com medicamentos.

Seguiram-se umas duas horas de choro incontrolável, enquanto eu aguardava no pronto socorro uma definição sobre minha situação. Fiquei bem mais calma quando minha grande amiga, Antonieta Mascolli, que é médica, chegou e conversou sobre meu caso com a cirurgiã vascular de plantão. Outra grande amiga, Cristina Duran, chegou em seguida. Acabei sendo internada na mesma noite e passei os cinco dias seguintes em um quarto de hospital (de onde escrevo este post). Espero ter alta hoje, sábado.

As lições: trombose não é exclusiva dos que já passaram dos 60; o corpo fala e quanto mais rapidamente o escutarmos, melhor; amigos estão entre o que de mais precioso conquistamos na vida. Tive inúmeras demonstrações disso durante os dias em que passei internada. Por fim, o relato acima também serve para justificar a ausência de posts das últimas semanas. Acredito que voltarei a escrever com regularidade dentro de uns 15 dias.

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