O degredo chinês

Cláudia Trevisan

13 de março de 2009 | 09h59

Dezenas de internautas chineses lamentaram nos últimos dias a transferência para a longínqua província de Xinjiang, no extremo oeste do país, de um professor da Universidade de Pequim que no ano passado assinou a “Carta 08”, um documento que desafia o Partido Comunista ao defender profundas reformas democratizantes.

O professor de direito He Weifang foi um dos 300 signatários originais do texto, que depois ganhou a adesão de cerca de 8.000 pessoas online. Apesar de nenhum dos comentários fazer referência à “Carta 08” _tema absolutamente vetado pela censura_, muitos manifestam a convicção de que a transferência se deu por motivações políticas.

“É triste para toda a sociedade ver isso acontecer na China de hoje, no momento em que a política de reforma e abertura completa 30 anos”, escreveu jing de wei xiao. Outro internauta foi mais dramático: “Como uma pessoa que também trabalha no campo jurídico, eu espero sinceramente que ele volte vivo”, disse miaomiao gonggong.

Divulgada no dia 10 de dezembro, a “Carta 08” propõe 19 mudanças fundamentais na política chinesa que, se adotadas, representariam o fim do regime comunista. Entre elas, estão eleições diretas, pluripartidarismo, divisão de Poderes e liberdade religiosa, de manifestação, de associação e de expressão.

A reação do governo contra seus signatários começou antes mesmo da divulgação do documento, com a prisão, no dia 8 de dezembro, do dissidente Liu Xiaobo, que continua detido até hoje.
No início de janeiro, o governo tirou do ar o portal bullog.cn, um dos mais populares sites de discussão entre intelectuais chineses, que abrigava blogs de vários signatários da “Carta 08”. Além disso, muitos dos que apoiaram o documento foram chamados pela polícia para prestar “esclarecimentos”.

Em entrevista à Associated Press, o professor He Weifang disse não ter recebido uma justificativa para sua transferência e evitou afirmar que ela está relacionada a seu apoio ao documento. Não é raro que professores das grandes universidades de Pequim passem temporadas em instituições de províncias distantes.

O momento atual é especialmente sensível para o governo chinês em razão da proximidade do aniversário de 20 anos do massacre da praça da Paz Celestial. No dia 4 de junho de 1989, tanques do Exército de Libertação Popular colocaram fim a dois meses de protestos de estudantes por reformas democráticas, deixando um saldo de 1.000 mortos, na avaliação da Anistia Internacional.

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