O dono da bola

Cláudia Trevisan

21 de abril de 2008 | 23h00

Não é fácil brigar com o dono da bola, principalmente quando ele tem um time de 1,3 bilhão de pessoas e acaba de entrar na primeira divisão do mundo. Os esforços do presidente francês Nicolas Sarkozy para fazer as pazes com a China depois dos protestos contra a passagem da Tocha Olímpica em Paris mostram os limites econômicos das pressões políticas sobre o governo de Pequim. O mundo virou quase um refém da sedução exercida pelo enorme e crescente mercado chinês e ninguém quer correr o risco de estar fora dele.
Depois de condicionar sua ida à abertura da Olimpíada de Pequim à retomada do diálogo entre o governo chinês e o dalai-lama, Sarkozy lançou nos últimos dias uma campanha de relações públicas para fortalecer os laços entre França e China. Na segunda-feira enviou uma carta convidando a atleta Jin Jing para visitar de novo Paris. Paraplégica, Jin se transformou em uma heroína na China depois de ter defendido a Tocha Olímpica de um manifestante que tentou arrancá-la de suas mãos na capita francesa.
Apesar de a rede de supermercados Carrefour ter se tornado o alvo principal dos protestos no país asiático, os interesses econômicos em jogo são muito maiores. O presidente francês visitou a China em novembro do ano passado e conseguiu fechar contratos no valor de US$ 30 bilhões para venda de aviões e reatores nucleares para o governo de Pequim. Só a Airbus, que tem sede na França, assinou contratos para entrega de 160 aeronaves, no valor de US$ 17,4 bilhões. A estatal francesa Areva vendeu reatores nucleares avaliados em US$ 11,9 bilhões.
Com os setores aéreo e de infra-estrutura totalmente controlados pelo Estado, a China tem o poder de definir de quais países suas empresas vão comprar equipamentos de preços bilionários. E também pode romper contratos já assinados, desde que isso atenda a seus interesses políticos.
O país asiático vai subir neste ano para o terceiro lugar no ranking das grandes economias do mundo, acima da Alemanha e atrás apenas de Estados Unidos e Japão.
Ansiosos por abocanhar um pedaço desse mercado, empresas e investidores fazem concessões que dificilmente aceitariam em países menos relevantes do ponto de vista econômico. Google e Yahoo! se adaptaram às regras da censura chinesa e incluíram em seus dispositivos de busca mecanismos que bloqueiam as páginas vetadas pelo governo chinês. O Yahoo! foi mais longe e forneceu a Pequim informações que permitiram a identificação de um internauta que havia enviado um e-mail para um amigo em Nova York com cópia de um documento do Partido Comunista. Graças à ajuda do Yahoo!, o internauta chinês foi condenado a 10 anos de prisão.
As clássicas queixas de investidores internacionais contra a falta de segurança jurídica na América Latina são virtualmente ausentes na China. O Judiciário local não tem nenhuma independência e há inúmeros casos de empresas estrangeiras que viram seus contratos serem descumpridos pelos sócios chineses. Mesmo assim, ninguém ameaça tirar seus investimentos da China. O desrespeito à propriedade intelectual é generalizado e a pirataria é praticada às claras, em shoppings e lojas que fazem parte do roteiro turístico. Estados Unidos e Europa reclamam constantemente, mas isso não altera sua disposição de investir na China. Pelo contrário. A Microsoft, uma das maiores vítimas da pirataria, aumenta a cada ano sua presença no país e cultua ótimas relações com a cúpula do Partido Comunista. Como as demais empresas, também se curvou às exigências do governo chinês. Quando lançou no país o MSN Spaces, em 2005, a Microsoft baniu palavras e expressões consideradas “sensíveis” pelas autoridades de Pequim, entre elas “democracia” e “liberdade”.
Ninguém quer estar fora do alcance dos cada vez mais ricos consumidores chineses.

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