O fantasma do Iraque assombra Obama

Cláudia Trevisan

13 de junho de 2014 | 11h28

No dia 31 de outubro de 2011, o presidente Barack Obama anunciou o fim da guerra no Iraque, o país que seu antecessor, George W. Bush, havia invadido nove anos antes sob o falso pretexto de que o ditador Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa. As tropas americanas deixaram o país no dia 1º de janeiro de 2012, mas a guerra entre os iraquianos nunca acabou.

Agora, seu fantasma vem assombrar Obama, na forma de um Iraque que se esfacela diante do avanço do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isil, em inglês). Mais radical que a al-Qaeda, o grupo defende a criação de um Estado muçulmano no Oriente Médio, no qual seria aplicado o código de conduta da religião, a sharia.

Os Estados Unidos gostariam de ter deixado soldados no Iraque depois do fim oficial da guerra, mas não conseguiu chegar a um acordo com o governo de Bagdá sobre uma questão crucial: a garantia de que seus militares não estariam sujeitos às leis iraquianas e seriam julgados por cortes americanas, nos termos das leis de seu país. Esse é um dos pontos do pacto que os EUA tentam agora fechar com o Afeganistão para permitir que quase 10 mil soldados permaneçam no país depois do fim das operações de combate, em dezembro.

Obama está sob pressão para enviar reforços ao primeiro-ministro Nouri al-Maliki, que está no cargo desde 2006. Integrante da corrente xiita do islamismo, ele adotou uma postura intransigente em relação aos sunitas, que os marginalizou do processo político e contribuiu para o fortalecimento de grupos extremistas como o Isil.

Os Estados Unidos perderam 4.400 soldados no Iraque e gastaram pelo menos US$ 1 trilhão –o custo real pode subir a US$ 1,7 trilhão, se forem incluídos gastos médicos com veteranos de guerra. Essas cifras são repetidas pelas TVs americanas com frequência no meio do noticiário sobre a insurgência sunita, que domina a programação dos últimos dias. Parte dos recursos foram gastos no treinamento do Exército iraquiano, que agora se mostra impotente diante do Isil. Pior, há vários relatos de soldados simplesmente abandonando seus postos, sem demonstrar disposição de resistir aos radicais sunitas.

O cenário de tropas americanas voltarem a solo iraquiano parece fora de questão. Mas os republicanos defendem que os EUA mandem aviões de guerra para ajudar Malik na guerra com o Isil, grupo que eles veem como uma ameaça a seu próprio país. O senador John McCain, derrotado por Obama em 2008, chegou a propor a volta da equipe de Bush que comandou a ofensiva contra Saddam, algo recebido com espanto por muitos em Washington. Democratas como o deputado Adam Shiff, do Comitê de Operações Estrangeiras, sustentam que qualquer intervenção deve ser precedida por mudanças políticas de Malik, que levem à inclusão de sunitas em sua gestão.

Nenhum das opções diante de Obama são boas, mas uma coisa é clara: a sua promessa de que a guerra havia acabado parece mais frágil do que nunca.

Mais conteúdo sobre:

Barack ObamaEUAIraqueIsil