O Google e a autocensura

Cláudia Trevisan

24 de março de 2010 | 08h13

A decisão do Google de fechar seu site na China e deixar de censurar os resultados de suas buscas não aumentou o acesso dos internautas chineses a informações proibidas pelas autoridades de Pequim. O Google deixou de praticar a censura, mas o governo chinês, não. A diferença é que antes o site tinha a obrigação de incorporar a seu sistema de buscas os filtros impostos pela autoridades locais _ou seja, a censura era “terceirizada” para a empresa.

Agora, o bloqueio é realizado pelo mecanismo oficial que impossibilita a abertura dos milhares de sites que trazem informações “sensíveis”, o que inclui independência do Tibete ou a defesa do pluripartidarismo. A prática da censura foi uma das condições aceitas pela companhia norte-americana para entrar na China, em 2006, e criar o google.cn, específico para o público do país.

Ontem, esse site deixou de existir e seus usuários passaram a ser redirecionados para o google.cm.hk, com sede em Hong Kong. Apesar da nova roupagem, as restrições de acesso às informações continuaram a ser as mesmas, em razão da “grande muralha de fogo” erguida pelos censores chineses em torno da internet. Essas restrições se aplicam a outros sites de busca, como o Yahoo!, que não possui uma versão específica para a China, e o google.com em inglês, que continua a ser acessado no país.

Os limites da censura não são claros e páginas que podem ser abertas em um período deixam de ser acessíveis em outros, especialmente durante encontros importantes do Partido Comunista. Ontem, a muralha parecia estar mais alta que o usual. A pesquisa com o nome o nome da seita “falun gong”, banida pelo governo chinês nos anos 90, trazia como resposta uma página em branco e a mensagem “O Internet Explorer não pode exibir a página da Web”.

Nos lugares onde não há censura, esse é o texto que aparece quando há problemas na conexão. Falun gong é um tema sempre sensível, mas há períodos em que pelo menos os resultados da busca aparecem _só que os links exibidos não podem ser abertos. No google.cn, a mensagem que era exibida como resultado de buscas bloqueadas era “de acordo com leis, regulamentos e políticas locais, parte da pesquisa não pode ser mostrada”.

Em 2006, o Google concordou em aceitar a censura porque estava tendo dificuldades em expandir sua presença na China. Muitos usuários acreditavam que o site tinha problemas de conexão quando buscavam algo bloqueado pelo governo. Ao se submeter às regras, a companhia passou a atuar em igualdade de condições com seu principal concorrente, o Baidu, que lidera o mercado, com uma fatia de 63%.

O governo de Pequim tentou ontem amenizar o impacto da decisão do Google de fechar seu site chinês e caracterizou o movimento como algo puramente comercial. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Qin Gang, afirmou que o fato não deve abalar as relações entre a China e os Estados Unidos, a menos que “alguém politize a questão”. Na sexta-feira, quando o fechamento do google.cn parecia iminente, o jornal oficial “China Daily” publicou reportagem segundo a qual os Estados Unidos estão utilizando a decisão da empresa para endurecer sua posição em relação à China. “O caso Google deu aos Estados Unidos a oportunidade de readotar sua posição linha-dura e distanciar-se da diplomacia ‘smart’ que vinha sendo adotada em relação à China”, dizia a abertura do texto, citando termo criado pela secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton.

Para a China, o fato de uma das maiores empresas do mundo deixar o país sob o argumento de não ter um ambiente propício ao desenvolvimento de seus negócios é um desastre de relações públicas. O dano é ainda maior por tratar-se de uma das companhias mais inovadoras do planeta _qualidade que as autoridades de Pequim querem atrair cada vez mais para o país. O Google enfrentará um período de incerteza em relação a seu futuro na China, onde há quase 400 milhões de internautas, a maior população online do mundo.

“Não se sabe qual será a consistência do serviço que será prestado a partir de Hong Kong e ninguém sabe se o Google será bloqueado ou não na China continental”, afirmou Cao Junbo, analista-chefe da consultoria iResearch. O governo chinês pode simplesmente impedir o acesso a todos os serviços prestados pelo Google a partir do exterior, mas é pouco provável que isso ocorra, pelo menos no curto prazo.

A decisão seria extremamente prejudicial para pesquisadores e professores universitários que buscam informações científicas por meio do site norte-americano. Também afetaria as empresas que utilizam os serviços do Google em seus negócios, incluindo o Gmail. Levantamento realizado pela revista Nature junto a 784 cientistas chineses indicou que 80% deles se valem do Google regularmente para busca de estudos acadêmicos. Divulgada no início do mês, a pesquisa mostrou ainda que 48% acreditam que seus esforços de pesquisa serão “significativamente” prejudicados se eles perderem acesso ao Google, enquanto outros 36% disseram que seriam “parcialmente” afetados.

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