O Google e a censura chinesa

Cláudia Trevisan

14 de janeiro de 2010 | 00h01

Quando aceitou incorporar o sistema oficial de censura a seu site chinês, em 2006, o Google estava de olho no que em breve seria o maior mercado de internautas do mundo _três anos mais tarde, a China ultrapassou os Estados Unidos e assumiu a liderança no universo de pessoas conectadas. Atualmente são 340 milhões, mais do que toda a população norte-americana. Mas como muitos outros em Washington, o Google também acreditava que a integração econômica da China ao mundo, o aumento do acesso à internet e a emergência de algo equivalente a uma classe média levariam inevitavelmente à redução da censura e à gradual abertura política do país. Nada disso aconteceu e, desde 2008, os controles sobre o fluxo de informação se intensificaram.

O Google pagou um alto preço em termos de imagem ao se submeter aos limites da censura imposta por Pequim. Agora, corria o risco de ver ativistas de direitos humanos chineses que usam o Gmail serem expostos por hackers que entraram em seu sistema no mês passado. De acordo com nota divulgada pela empresa na terça-feira, esse grupo foi o principal alvo do “sofisticado cyber ataque” de que foi vítima.

O principal concorrente global do Google, o Yahoo!, viveu um pesadelo de relações públicas em 2005 por sucumbir às pressões do governo chinês para revelar a identidade de um usuário de seu serviço de e-mail. Graças à colaboração do Yahoo!, o jornalista chinês Shi Tao foi condenado a 10 anos de prisão, sob acusação de divulgar “segredos de Estado” _ele havia usado seu e-mail para enviar a um amigo nos Estados Unidos cópia de um documento do Partido Comunista que havia sido divulgado dentro da China.

O Google também sofreu um desgaste de imagem ao aceitar a censura, mas não conseguiu o retorno comercial que desfruta em outros países. Quatro anos depois de criar seu site de busca em chinês, a companhia se mantém em um distante segundo lugar em um mercado dominado por seu principal concorrente local, Baidu. O governo de Pequim privilegia os sites chineses e os limites para o Google atuar no país são cada vez mais estreitos. Nesse cenário, talvez o maior site de buscas do mundo tenha mais a ganhar realizando uma ofensiva que o coloca como defensor global da liberdade de expressão do que enfrentando o desgaste de se manter em um país autoritário que representa menos de 2% de seu faturamento total.

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