O mausoléu Kim e o culto à personalidade na Coreia do Norte

O mausoléu Kim e o culto à personalidade na Coreia do Norte

Cláudia Trevisan

08 de abril de 2013 | 12h13

O Palácio do Sol é o centro do fervoroso culto à personalidade dos líderes da família Kim, a dinastia que comanda a Coreia do Norte há três gerações. Visto como um lugar sagrado, o edifício abriga os corpos embalsamados de Kim Il-sung e Kim Jong-il, em salas cujas proporções fazem os mausoléus de Mao Tsé-tung, em Pequim, e de Vladimir Lenin, em Moscou, parecerem casas de bonecas.

Ir ao local é um ritual quase religioso, que centenas de norte-coreanos realizam diariamente. As visitas são organizadas por entidades estatais e ninguém pode entrar no palácio sem prévia autorização oficial. Domingo é o único dia em que estrangeiros são aceitos, desde que obtenham com antecedência o sinal verde do Ministério das Relações Exteriores.

Grupos de norte-coreanos chegam ao mausoléu em ônibus e fazem filas antes de começar a peregrinação dentro do imenso edifício, onde Kim Il-sung morou e trabalhou até morrer, em 1994. Com a morte de seu filho, em dezembro de 2011, o local foi remodelado para abrigar os corpos de ambos e reaberto um ano mais tarde.

As paredes de pé direito altíssimo são cobertas de mármore, enquanto lustres de cristal iluminam os amplos salões, em contraste com a pobreza na qual vive a maioria da população. Os visitantes entram no palácio por um esteira rolante, que percorre quase 200 metros ao som do clássico norte-coreano “O presidente Kim Il-sung e o líder Kim Jong-il estarão eternamente conosco”.

A esteira seguinte atravessa um corredor decorado com fotos de Kim Il-sung desempenhando as mais diversas funções _inspeções de fábricas, visitas a escolas, reuniões com militares e encontros com dirigentes estrangeiros. Imagens semelhantes de Kim Jong-il ocupam o trecho subsequente. Por fim, há um corredor com fotografias de pai e filho juntos. O atual líder, Kim Jong-un aparece em algumas delas ao lado de seu pai.

Vestidos com suas melhores roupas, os norte-coreanos caminham em silêncio. Ao fim da peregrinação pelas fotos, são levados a um salão decorado com estátuas brancas dos Kim mortos. O ritual exige que se postem diante delas e realizem uma reverência acentuada.

Depois de passar por jatos de ar para a retirada de poeira, os norte-coreanos podem finalmente entrar no salão onde está Kim Il-sung, imerso em uma penumbra de tons avermelhados. Todos têm de realizar três reverências: uma diante do corpo e duas nas laterais. A mesma coreografia é repetida perante Kim Jong-il, instalado em outra sala de cenário idêntico.

A peregrinação continua em salões dedicadas a condecorações recebidas por cada um dos Kim de dirigentes estrangeiros, que têm a função de apresentar à população o suposto prestígio internacional da dinastia. Em uma das fotos que decoram as paredes, Kim Il-sung aparece ao lado de Hafez al-Assad, pai do atual ditador sírio, Bashar al-Assad.

A exibição é completada com a apresentação, em salas separadas, dos vagões de trem utilizados pelos líderes em seus deslocamentos. Painéis eletrônicos mostram o número de viagens realizadas e o total de quilômetros percorridos. Avesso a voar, Kim Jong-il usou o trem 1.567 vezes, nas quais viajou 334 mil quilômetros.

Do lado de fora, centenas de civis e soldados norte-coreanos trabalhavam ontem no jardim do Palácio do Sol, dentro dos preparativos para a celebração dos 101 anos de nascimento de Kim Il-sung, no dia 15 de abril. Na mitologia criada pela propaganda oficial, ele é o “presidente eterno”.

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