O mundo não cabe no sonho americano

Cláudia Trevisan

07 de dezembro de 2009 | 00h44

A integração de milhões de chineses e indianos à economia global e a ameaça da mudança climática deixam claro que o mundo não cabe mais no sonho americano do consumo desenfreado, dos carrões e do desperdício. A China se transformou no patinho feio da questão ambiental, com o maior volume de emissões de gases que provocam o efeito estufa, mas os Estados Unidos continuam a ser o maior poluidor quando se considera as emissões per capita de seus habitantes. Cada norte-americano polui quatro vezes mais que um chinês e o dobro de um europeu.

O sonho americano funcionava em um mundo de poucos, no qual o 1,3 bilhão de chineses e o 1,1 bilhão de indianos estavam virtualmente ausentes do mercado de consumo global, em razão da pobreza em que viviam. Quando essa massa que representa 40% da humanidade começa a comprar carros, viajar de avião e produzir a enorme quantidade de lixo associada ao modelo industrial ocidental, fica claro que o mundo terá que inventar outro sonho, muito mais frugal que o americano. Se a China tivesse a mesma proporção de carros por habitante existente hoje nos Estados Unidos, o país teria mais carros do que os que circulam hoje em todo o planeta.

E esse novo sonho terá que ser sonhado também pelos norte-americanos, que até agora se recusaram a assumir qualquer compromisso internacional que limite as suas emissões de gases, que representam cerca de 20% do total. Não é moralmente justificável exigir que os emergentes chineses e indianos adiem suas aspirações de consumo para que os americanos possam continuar a comprar enormes SUVs. Claro que a China também tem enorme responsabilidade na questão do aquecimento global, principalmente em razão de sua grande dependência do carvão para produção de energia. Mais poluente entre os combustíveis fósseis, ele reponde por 70% da matriz energética do país. Mas até agora, os líderes chineses mostraram mais disposição para enfrentar o problema do que os norte-americanos.

A Conferência do Clima que começa hoje em Copenhague traz o desafio de países ricos e pobres chegarem a um acordo sobre as responsabilidades de cada um no combate do aquecimento global. O painel das Nações Unidas que estudou o problema concluiu que os países desenvolvidos precisarão reduzir suas emissões entre 25% e 40% até 2020 em relação ao patamar existente em 1990. A proposta dos Estados Unidos prevê um corte de 17% sobre o nível de 2005, o que equivale a uma diminuição de 4,8% na comparação com 1990. Isso representa menos de um quinto do menor patamar de corte considerado necessário pelo painel das Nações Unidas. Para quem não fez nada até agora é muito pouco, não?

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