O Oscar anti-Trump

O diretor Spike Lee pediu que eleitores fiquem do “lado certo da história” na disputa presidencial de 2020. Depois de avisar que o evento não teria um apresentador, Maya Rudolph emendou: “E o México não vai pagar pelo muro”

Cláudia Trevisan

25 de fevereiro de 2019 | 13h28

O nome de Donald Trump não foi pronunciado em nenhum momento das 3h22 da cerimônia de entrega do Oscar, mas a rejeição explícita ou implícita a seu governo marcou a premiação. O diretor Spike Lee foi o mais direto, com um apelo para que os eleitores fiquem do “lado certo da história” na disputa presidencial de 2020. Depois de avisar logo na abertura que o evento não teria um único apresentador, Maya Rudolph emendou: “E o México não vai pagar pelo muro”.

Alfonso Cuarón levou o Oscar de melhor diretor, na quinta vez em seis premiações seguidas em que o prêmio foi dado a cineastas que nasceram do lado de lá da barreira que Trump quer construir –ele já havia vencido em 2014 com Gravity. O espanhol entrou em parte de seu discurso de agradecimento e foi a língua usada por dois outros artistas: Javier Bardem e Diego Luna. Ya se puede hablar español en los OscarsYa nos abrieron la puerta y no nos vamos a ir”disse Luna ao apresentar o filme Roma, dirigido por Cuarón.

Refletida na diversidade dos que ocuparam o palco, a imigração foi celebrada por Rami Malek, o filho de egípcios nascido nos EUA que ganhou o Oscar de melhor ator por sua performance como Freddie Mercury em Bohemian Rhapsody. “Eu sou filho de imigrantes do Egito. Eu sou da primeira geração de americanos, e parte da minha história está sendo escrita neste momento.”

Imigrantes também foram homenageados pelo chefe espanhol José Andrés, um ferrenho crítico de Trump, que apresentou Romaao lado de Luna. No início do mês, ele assistiu ao discurso do Estado da União do presidente com uma camiseta na qual estava escrito “Imigrantes Alimentam a América”. Imigração e o muro estão no centro da retórica de Trump e ocupam o primeiro lugar da lista de prioridades de sua base eleitoral.

O número de mulheres e negros no palco evidenciou o esforço da Academia de se redimir depois da debacle do Oscar de 2015, dominado por homens brancos. Naquele ano, a afro-americana Ava DuVernay não chegou nem a ser nomeada como melhor diretora por Selma, que retrata um dos momentos cruciais da luta por direitos civis liderada por Martin Luther King. O vencedor de melhor filme em 2019 foi Green Book, outra obra que aborda o período de segregação racial no Sul dos EUA. A premiação desagradou parte da comunidade afro-americana, que vê o filme como uma versão açucarada dos horrores que os negros enfrentaram. Os críticos acreditam que Green Bookfaz parte da tradição de obras que distorcem a história e apresentam brancos como “salvadores” de afro-americanos oprimidos.

Mas o que incendiou o Twitter foi a escolha do deputado John Lewis para introduzir Green Book. Veterano do movimento dos direitos civis e participante da marcha de Selma a Montgomery retratada em Selma, ele é outro ferrenho opositor de Trump. Aplaudido de pé, Lewis lembrou ter sido testemunha da era em que negros eram tratados como cidadãos de segunda categoria no país. Críticas à sua presença não vieram dos apoiadores do presidente, mas dos que consideram Green Bookum filme que distorce a história da luta pelos direitos civis, da qual Lewis é um ícone.

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