O poder de compra de cada um

Cláudia Trevisan

24 de março de 2008 | 04h11

Atendendo às reclamações de alguns leitores, volto à questão dos preços baixos (ou altos?) do post “200 cartões a R$ 10”. O PIB per capita da China é de US$ 2.500, menos da metade dos US$ 6.842 do Brasil, segundo dados do Fundo Monetário Internacional. Mas se nós olharmos o PIB per capita ajustado pela paridade do poder de compra, o da China sobe para 8.788, não muito distante dos 10.637 recebidos pelos brasileiros. Chamado pela sigla em inglês de PPP (Purchasing Power Parity), este índice é o preferido dos especialistas para comparar diferentes economias, porque leva em conta o poder de compra de cada moeda dentro do respectivo país. Isso significa que para cada dólar que ganha, um chinês pode comprar muito mais coisas do que um brasileiro com o mesmo dólar, porque no seu país os preços são relativamente mais baixos. Passagens de metrô a R$ 0,5 e de ônibus a R$ 0,25 são baratos, mesmo para os chineses.
Mas isso não significa que eles vivam em um estado de bem estar social, com serviços públicos acessíveis a todos. Pelo contrário. Uma das coisas que mais me surpreendeu quando morei aqui na primeira vez (2004-2005) foi descobrir que a China comunista não tem um sistema público e universal de saúde, que o ensino, mesmo o fundamental, é pago e que a maioria da população não tem aposentadoria. Os chineses que possuem um vínculo de trabalho formal podem ter um seguro saúde, mas isso é a minoria. A maior parte tem que pagar quando precisa ir ao médico ou se internar em um hospital. A educação também é paga, desde o primário. No ano passado, o governo iniciou na zona rural um programa de isentar as famílias das anualidades durante os nove anos de ensino compulsório. Os primeiros beneficiados foram 150 milhões de crianças camponesas pobres. A idéia agora é estender o programa às cidades. Mas as universidades continuarão pagas. A da minha intérprete, que estudou inglês, custava cerca de R$ 1.500 por ano.
Aposentadoria é um luxo para poucos. A maioria dos chineses que mora na zona rural (55% da população) não tem nenhum amparo na velhice. Na cidade, os empregados de empresas estatais recebem o benefício, mas seu número é cada vez menor. A falta de um sistema previdenciário e de saúde públicos é uma das razões pelas quais os chineses têm um índice altíssimo de poupança, de quase 50% do PIB. Sem o amparo do Estado, eles guardam dinheiro para momentos de necessidade e para sobreviver na velhice. É também um dos motivos pelo quais os pais preferem ter filhos do sexo masculino. De acordo com a cultura chinesa, cabe ao filho homem cuidar dos pais, enquanto a filha vai cuidar de seus sogros.
O atual governo colocou entre seus principais objetivos a criação de um sistema prividenciário e de saúde públicos acessíveis a todos, principalmente os mais pobres. O aumento de 31,4% na arrecadação de impostos no ano passado, para pouco mais de US$ 600 bilhões, deu folga orçamentária para o Partido Comunista ampliar o investimento nessas áreas. Mas em um país de 1,3 bilhão, a construção de uma rede de proteção social é um processo que vai demorar muito para ser concluído.

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