O primeiro Nobel que Pequim pode celebrar

Cláudia Trevisan

12 de outubro de 2012 | 06h49

O escritor Mo Yan é o primeiro chinês que não está preso nem exilado a ganhar um Prêmio Nobel e é o único escolhido a ser celebrado por Pequim. As premiações anteriores foram dadas a opositores do regime, que reagiu com fúria, especialmente na escolha do dissidente Liu Xiaobo para o Nobel da Paz de 2010.

Liu Xiaobo foi condenado a 11 anos de prisão em 2009, sob a acusação de subversão. Antes dele, o dalai lama, líder espiritual dos tibetanos, havia ganho o mesmo prêmio em 1989. O dalai lama deixou a China em 1959, vive exilado na Índia e é considerado um “separatista” pelo Partido Comunista. Se o Tibete pertence a China, como sustenta Pequim, o dalai lama é chinês, o que eleva a quatro a quantidade de Prêmios Nobel dados aos país. Mas só o anunciado ontem é “reconhecido” pelo governo.

Apesar de ser o primeiro “cidadão chinês” a ganhar o Nobel de Literatura _anunciado ontem_ Mo Yan não é o primeiro “escritor chinês” escolhido pela academia sueca. Gao Xinjian, 72, venceu o prêmio em 2000, mas não houve festa em Pequim _perseguido pelo regime, o autor se refugiou em Paris no fim dos anos 80 e se tornou cidadão francês em 1997. Escritos em chinês, seus livros são banidos no país onde nasceu e passou os primeiros 47 anos de sua vida.

A escolha de Gao Xinjian foi desprezada em artigo publicado há quatro dias pelo jornal Global Times, ligado ao Partido Comunista. “Durante mais de cem anos, os nomes de autores chineses estiveram ausentes da lista de vencedores do Prêmio Nobel de Literatura”, disse a publicação, que descreveu Gao Xinjian como um “dissidente sino-francês que deixou a China em 1987”.

O texto dizia que a obra de Gao reflete valores ocidentais e é “altamente controvertida” dentro do país _o que ignora o fato de que ela é antes de mais nada desconhecida em razão da censura. Em contraposição, Mo Yan foi descrito como “uma dos mais lidos escritores na China e um típico autor chinês no sentido tradicional”.

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