O soldado maoísta, a moral e a censura

Cláudia Trevisan

06 de março de 2012 | 13h01

O governo chinês decidiu usar a velha propaganda maoísta para tentar combater a crise moral que assolada o país, cujo maior símbolo é o caso da menina de 2 anos ignorada por mais de uma dezena de pessoas em outubro quando agonizava na rua depois de ter sido atropelada na cidade de Foshan, na sulista província de Guangdong. Finalmente socorrida por uma catadora de lixo, Wang Yue morreu no hospital e desencadeou um movimento nacional de questionamento dos valores que sustentam a sociedade chinesa depois de três décadas de crescimento tórrido sob o slogan “enriquecer é glorioso”.

Para combater a aparente crise moral do país, o governo ressuscitou Lei Feng, um soldado morto em 1962 e transformado pela máquina de propaganda de Mao Tsé-tung em símbolo de altruísmo e sacrifício desinteressado. Cinquenta anos depois de sua morte, o Partido Comunista tenta resgatar a figura do soldado de biografia impecável, mas a ofensiva propagandística tem efeitos limitados, em uma sociedade cada vez mais informada, como mostra reportagem do The New York Times. A ofensiva também é recebida com cinismo por muitos desiludidos pelo grau de corrupção que envolve integrantes do Partido, para os quais uma dose do espírito de Lei Feng seria apreciada.

O texto do NYT cita um internauta que reflete a reação de parte da população à campanha oficial, que elegeu 5 de março como “O Dia de Aprender com Lei Feng”: “Seus filhos migraram para fora do país, mas você me pede para aprender com Lei Feng na China. Eu tenho câncer por causa do leite venenoso que eu bebi, mas você me pede para aprender com Lei Feng”, escreveu o chinês que assina online como “Notebook”.

Os filhos de vários dirigentes comunistas estudam no exterior e toda a família de alguns deles vive fora da China. Dentro do país, a população enfrenta inúmeros casos de alimentos contaminados, como o leite misturado com melamina que matou seis crianças e deixou outras 300 mil doentes em 2008.

A mesmo tempo em que tenta corrigir a crise moral com propaganda maoísta, o governo aperta o cerco às versões chinesas do Twitter, que se transformaram em um dos principais instrumentos de crítica aos desmandos, corrupção e abuso de poder e se mostram muito mais efetivos na construção de uma sociedade melhor do que Lei Feng.

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