O terremoto, a solidariedade e a imprensa

Cláudia Trevisan

28 de maio de 2008 | 08h43

Acreditar que o terremoto da China tenha ocorrido por qualquer outra razão que não a geológica disposição da região para tremores de Terra é de uma crueldade atroz. Os 80 mil chineses que padeceram sob os escombros dos milhares de edifícios que desabaram em Sichuan não morreram por falta de fé ou porque seu governo oprime os tibetanos.

Quanto à solidariedade, posso garantir que os chineses são tão ou mais solidários que qualquer de nós que se visse em uma situação parecida, com milhares de pessoas desamparadas por terem perdido pais, filhos, mulheres, maridos, netos e avós. Nos dias em que passei em Sichuan, fiquei impressionada com a quantidade de pessoas que deixaram de cultivar sua terra (a região é basicamente agrícola) para passar os dias socorrendo os desabrigados e órfãos. Chineses de todo o país fizeram doações espontâneas e isso não deve ser desprezado porque algumas empresas forçaram seus funcionários a darem muito mais do que poderiam.

A grande incógnita agora é saber se o terremoto vai de alguma forma mudar a sociedade chinesa, a visão do governo em relação à imprensa e a relação do país com o mundo. O nacionalismo xenófobo que explodiu depois das manifestações na passagem da Tocha Olímpica pelo mundo parece ter refluído diante da tragédia e da solidariedade demonstrada por outros países em relação à China. Mas o sentido de identidade e unidade nacionais saíram reforçados, assim como a imagem do primeiro-ministro Wen Jiabao, que chegou ao local do desastre poucas horas depois do terremoto e coordenou o trabalho de resgate das vítimas.

Normalmente ciosa de sua soberania e profundamente desconfiada dos estrangeiros, a China aceitou que equipes de outros países entrassem em seu território e participassem das operações de socorro, algo inédito na história recente. Também disse em alto e bom som para o restante do mundo que precisava de doações e de ajuda.

Mas a grande diferença em relação ao que é usual ocorreu na cobertura da tragédia realizada pela imprensa. Ainda que submetidos à censura, os jornalistas chineses tiveram liberdade inédita para viajar pelos locais afetados e apresentar ao vivo o que se passava. As redes de TV estatais fizeram uma cobertura intensiva, com equipes espalhadas pelas áreas afetadas. Os repórteres estrangeiros também tiveram relativa liberdade para se locomover e retratar ao vivo o que viam. Alguns, como eu e outros brasileiros, foram barrados pela polícia e impedidos de realizar entrevistas ou chegar a determinados lugares. Mas foram problemas momentâneos, que não evitaram que continuássemos a viajar e buscar contato com as vítimas.

O resultado foi uma cobertura que refletiu a realidade: uma tragédia, para a qual o governo chinês reagiu com rapidez. A imagem das autoridades locais que apareceu nas telas da CNN e da BBC era positiva, o que deveria servir de lição para os tecnocratas do Partido Comunista obcecados pela censura e o controle da informação. Quando têm acesso ao que está ocorrendo e são capazes de entrevistar todos os lados envolvidos, os jornalistas costumam fazer uma cobertura que é a mais isenta possível. O que não dá é que censores de Pequim decidam o que pode e o que não pode ser acompanhado por jornalistas, de acordo com seus interesses. Proibir o acesso da imprensa, como ocorre no Tibete, dá margem à desinformação, alimenta teorias conspiratórias e reforça a convicção de que algo indefensável está ocorrendo.

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