Os chineses han de Xinjiang

Cláudia Trevisan

15 de julho de 2009 | 09h07

O Estado de S.Paulo publicou este texto no domingo, que enviei de Xinjiang. Como nem todos vocês têm a assinatura do jornal, reproduzo a reportagem abaixo. Em seguida, vou colocar a relativa aos uigures, os muçulmanos que representam 45% da população da província e são os tradicionais habitantes da região.

Shi Yan Wen tinha 24 anos em 1957, quando deixou sua vila natal na província de Jiangsu e migrou para Xinjiang, no extremo o oposto da China, em uma viagem de caminhão que na época demorava 15 dias.
Como milhares de chineses han, Wang atendeu a ordem do Partido Comunista de ajudar a “reconstruir” o país depois do fim da guerra civil, em 1949, e se mudou para a região que nos anos 50 era habitada quase exclusivamente por uigures e outros grupos muçulmanos.
Os han construíram estradas, ferrovias, usinas de eletricidade e se consideram os responsáveis pelo desenvolvimento econômico e a integração da antes isolada região ao restante da China.

“O país precisava de muitos chineses han para construir Xinjiang. Se não fossem os han, Xinjiang não seria tão desenvolvida como hoje. Os uigures não conseguiriam fazer isso sozinhos”, disse Shi Yan Wen ao Estadão na sexta-feira no bairro chamado “Mercado de Cavalos”, onde vivem hans, uigures e huis, que são os hans muçulmanos.

A política de estímulo à migração está na origem do conflito étnico que explodiu com os ataques de uigures aos chineses han no dia 5 de julho. As agressões e os choques com a polícia provocaram a morte de 156 pessoas e deixaram pelo menos 1.000 feridos.
No início dos anos 50, a população de chineses han em Xinjiang era de 6% e a de uigures, 74%. O restante era formado por outros grupos étnicos da região. Em 1964, o percentual de hans havia saltado para 32%, de acordo com o censo chinês, no maior aumento proporcional registrado desde a chegada do Partido Comunista ao poder, em 1949.

A participação de hans na população de Xinjiang chegou ao pico de 41% em 2000 e caiu para 39% em 2007, quando a percentual de uigures era de 46%. De acordo com os “pioneiros”, a relação entre imigrantes han e uigures era amistosa. “Nós visitávamos os uigures no Ramadan e eles nos visitavam no Ano Novo chinês”, lembrou Wang Cao Tao, 78, que migrou da província de Shangdong para Xinjiang em 1957.

As famílias dos dois chineses han já estão na terceira geração em Urumqi, capital da província, e eles se consideram tão locais quanto os uigures que habitavam a região originalmente. Wang Cao Tao tem quatro filhos e três netos, todos vivendo na cidade. A família tem um pequeno mercado ao lado de um restaurante uigur e de um café de propriedade do norte-americano Paul Van Allen, que vive em Urumqi há sete anos.

De acordo com Allen, um dos filhos de Wang Cao Tao evitou que o restaurante uigur fosse atacado na terça-feira por um grupo de chineses han que saiu às ruas para se vingar dos conflitos de domingo. “Quando os agressores chegaram, ele disse que era o dono do lugar”, disse o norte-americano ao Estadão.

O taxista Feng Xin Di, 43, nasceu em Urumqi, filho de imigrantes que se mudaram da província de Shanxi para Xinjiang nos anos 50. Seu pai trabalhava na construção de estradas e sua mãe vendia verduras na rua. “Por que vieram? Esta é uma só nação e viver aqui ou lá não faz diferença”, observou.

Os chineses han se concentram em Urumqi, no norte da província, onde representam 75% dos 2,3 milhões de habitantes. A cidade muçulmana por excelência é Kashgar, a maior de Xinjiang, com 3,5 milhões de moradores, 89% dos quais uigures. Shi Yan Wen refuta as acusações de que os uigures são discriminados e ressalta que eles são beneficiados por políticas de ação afirmativa do governo chinês, entre as quais está a exigência de menor pontuação nos exames de entrada na universidade e não-aplicação da política de filho único imposta aos hans.

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