Os grandes ursos-gatos

Os grandes ursos-gatos

Cláudia Trevisan

11 de janeiro de 2009 | 11h41

Gu Gu tem 110 quilos, 9 anos e é irresistível, como todos os pandas que sobram na face da Terra. Apesar da aparência inofensiva, Gu Gu mordeu nos últimos dois anos três turistas que ousaram invadir seu território no zoológico de Pequim, onde os ursos podem ser vistos ao ar livre, em pequenos fossos gramados. A mais recente “vítima” foi Zhang Jiao, que diz ter caído sem querer no local quando tentava recuperar o brinquedo de seu filho de 5 anos. Gu Gu fincou seus dentes na perna do invasor, que sofreu danos nos músculos e ligamentos. Zhang só foi libertado depois que funcionários do zoológico usaram ferramentas para abrir a boca do urso. Agora, corre o risco de ser processado, se ficar provado que pulou deliberadamente no local _como sustentam testemunhas.

“Eu sempre achei os pandas lindos e pensei que eles só comessem bambu”, afirmou um surpreso Zhang, depois de ser submetido a uma cirurgia na perna esquerda. “Normalmente, nós pensamos que o panda é um animal muito terno, mas ele é um urso, não um gato. Se ele acreditar que vai ser ferido por um ser humano, ele pode ser perigoso”, lembrou o médico que realizou a operação, Wang Tianbing, em entrevista à CNN.

A analogia aos gatos não é gratuita. O nome chinês dos pandas é “daxiongmao”, que significa “grande urso-gato”. Os enormes animais são flexíveis como os felinos e são capazes de se escarrapachar em árvores para longas sonecas. Sua dieta é basicamente vegetariana e um adulto come entre 9 e 14 quilos de bambu por dia. Segundo cientistas, o incessante esforço de mastigação é que deu à espécie seu característico rosto redondo, no qual se destacam as orelhas e os olhos pretos.

Os pandas são considerados animais ameaçados de extinção e existem apenas cerca de 1.600 na China. Menos de 30 vivem em zoológicos de outros países _alguns foram doados pelo governo de Pequim dentro da política de boa vizinhança batizada de “diplomacia do panda”, mas a maioria é cedida por períodos definidos, mediante o pagamento de pequenas fortunas anuais.

Além da destruição das florestas que são seu habitat natural, a continuidade da espécie é dificultada por sua pouca disposição sexual, o que leva os administradores de reservas a adotarem diferentes práticas de estimulação, entre as quais está a exibição de “vídeos pornôs” que mostram pandas copulando.

Com esse histórico de vulnerabilidade, o instinto de preservação de Gu Gu é mais que desejável. Há menos de três meses, o panda mordeu um adolescente curioso que pulou em seu fosso e se aproximou do local onde ele brincava. Sua estréia no noticiário chinês ocorreu em 2007, quando mordeu um turista bêbado que tentou abraçá-lo. Em uma demonstração de que os humanos preservam algo de seu instinto animal _pelo menos quando bêbados_, o invasor se defendeu mordendo as costas de Gu Gu.

Foto publicada pelo jornal oficial China Daily mostra funcionário do zoológico de Pequim tentando socorrer a mais recente “vítima” de Gu Gu

Os pandas Tuantuan e Yuanyuan, doados pela China continental para Taiwan dentro da “diplomacia do panda”, em foto divulgada pelo China Daily

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