Os negros em Mad Men e as cotas no Brasil

Cláudia Trevisan

17 de outubro de 2012 | 05h46

O Brasil do ano 2012 se parece muito mais do que deveria com episódios de Mad Men, a série de TV norte-americana ambientada no início dos anos 60, na qual os negros que aparecem são ascensoristas, empregadas domésticas e garçons. Se você mora em São Paulo, tente lembrar quantas vezes vocês já foi a um restaurante dos Jardins ou da Vila Madalena e viu um negro sentado em uma mesa e não distribuindo cardápios ou recebendo pedidos? Nós vivemos em um apartheid social não declarado, no qual a Constituição e as leis proíbem qualquer forma de discriminação, mas a realidade reflete o abismo econômico-social que separa brancos e negros.

Mad Men se passa no período de luta pelos direitos civis e do histórico discurso de Martin Luther King Jr. “Eu tenho um sonho”. Até os anos 60, vários Estados Unidos americanos possuíam leis que separavam brancos e negros em escolas, transporte público e banheiros, por exemplo. O Brasil não teve uma política institucional de segregação, mas o fato é que a elite e a classe média do país viveram quase sempre em ambientes “brancos”, nos quais os negros desempenham o papel de serviçais.

O salto que os Estados Unidos deram dos anos de apartheid de Mad Men à eleição de Barack Obama para presidente se deve em grande parte à política de ação afirmativa, que criou cotas para negros nas universidades e no serviço público, além de estimular a diversidade racial nas empresas. A ideia costuma enfrentar uma avalanche de críticas no Brasil, mas é inegável que os negros carregam um herança histórica pesada, que os coloca em posição de desvantagem na disputa com brancos por um lugar ao sol.

Tratar a todos como se estivessem em condições iguais de concorrer só agrava as distorções, em um círculo vicioso que reproduz a desigualdade e a injustiça. E as universidades norte-americanas são a melhor resposta para os que acreditam que a política de cotas compromete a qualidade do ensino. Décadas depois da adoção da política de ação afirmativa, elas continuam entre as melhores do mundo.

No Brasil, a muralha que os negros devem transpor se torna ainda mais alta em razão da má-qualidade do ensino público de primeiro e segundo graus. As escolas particulares são o terrenos dos brancos e o trampolim para que eles conquistem vagas nas universidades públicas, de melhor qualidade e gratuitas, em uma das mais perversas distorções que favorecem as elites no Brasil. Eu estudei Direito na Universidade de São Paulo e no meu ano havia cerca de 400 alunos _200 na parte da manhã e 200 à noite. A maioria esmagadora era de brancos. A situação melhorou desde que me formei, em 1986, mas a composição dos alunos das universidades continua a anos luz do perfil racial da população.

O Estado de hoje traz reportagem segundo a qual o percentual de negros entre 18 e 24 anos que frequentam a universidade quadruplicou entre 1997 e 2011, mas continua em nível baixo, de 8,8%. Entrevistado pelo jornal, Vincent Lukas Gonçalves, 19, é o primeiro de sua família a frequentar uma universidade, com bolsa do ProUni: “Tem três negros na minha sala: eu, outro bolsista do ProUni e um garoto que trabalha na PUC e por isso também tem bolsa. Falam em inclusão, mas eu não vejo essa mudança. Um, dois, isso não é inclusão”.

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