Os pais órfãos

Cláudia Trevisan

21 de março de 2009 | 09h01

A dois meses do aniversário de um ano do terremoto que deixou quase 80 mil mortos na província chinesa de Sichuan, o artista plástico Ai Wei Wei deu início a uma campanha na internet para identificar os milhares de estudantes que morreram soterrados com o desabamento das escolas onde se encontravam no momento do tremor.
“Já se passaram mais de 300 dias desde o terremoto. O governo de Sichuan continua a adiar a divulgação de informações misteriosas sobre as mortes e a lista de mortos e apagou o fato de que centenas de milhares de estudantes morreram por causa desses projetos de ‘tofu'”, escreveu Ai Wei Wei em seu blog no dia 12 de março.
“Construção de tofu” é a expressão que os chineses utilizam para se referir a edifícios frágeis, que podem vir abaixo por qualquer motivo.
Cerca de 7.400 escolas desmoronaram em razão do terremoto de 8 graus na escala Richter que atingiu Sichuan, no centro da China, no dia 12 de maio. Em muitos lugares, os edifícios ao redor ficaram intactos, o que levantou suspeitas de que as escolas tenham sido construídas com material de baixa qualidade.
No mês de novembro, o governo chinês afirmou que 19.065 estudantes morreram no terremoto, o que representa 23% do total das vítimas. Em razão da política de controle de natalidade, muitos dos mortos eram filhos únicos, o que aumentou ainda mais a carga dramática das perdas.
O assunto desapareceu da imprensa oficial chinesa nos últimos meses e se tornou um dos mais “sensíveis” para as autoridades de Pequim, pelo potencial que tem de alimentar insatisfação em relação às autoridades.
Ai Wei Wei é considerado o pai da arte contemporânea na China e trabalhou na concepção do Ninho de Pássaros, o Estádio Nacional da Olimpíada de Pequim. Totalmente ignorado pela imprensa oficial, ele mantém um blog extremamente popular, no qual manifesta posições críticas ao governo chinês e defende maior liberdade e democracia.
Desde o dia 12 de março, ele faz o que deveria ser realizado pelo governo: divulga listas com nomes, idade, gênero, escola, local da morte e contato dos familiares dos estudantes. Até ontem, Ai Wei Wei havia publicado 71 listas, com um total de 1.790 nomes.
Antes de iniciar a campanha na internet, no dia 15 de dezembro, o artista começou a coletar dados por telefone e em visitas às regiões atingidas pelo tremor. Nos posts em seu blog ele também reproduz conversas que teve com funcionários de Sichuan na busca de informações sobre os estudantes mortos. Os diálogos revelam as dificuldades na obtenção de dados oficiais relativos às vítimas do terremoto. Há casos em que funcionários afirmam que as informações são sigilosas, outros se recusam revelá-las, se negam a dar seus nomes e, na maioria das vezes, o artista ouve a recomendação de entrar em contato com outro departamento.
Também há teorias conspiratórias. O funcionário que atendeu o telefone no Departamento de Manutenção da Estabilidade de Mianyang, uma das cidades atingidas pelo tremor, perguntou por que Ai Wei Wei estava interessado na informação. “Por que não posso me preocupar? Esse é um assunto que diz respeito aos chineses”, disse o artista. O funcionário se recusou a dar as informações com o seguinte argumento: “Eu sou chinês também. E se você for um agente secreto enviado pelos americanos?”.

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