Os pais órfãos

Os pais órfãos

Cláudia Trevisan

20 de maio de 2008 | 04h57

Mais de uma semana depois do terremoto que atingiu a China, ainda não se sabe o tamanho exato da devastação provocada pelo maior desastre vivido pelo país em 32 anos. Se considerarmos o número de pessoas que ainda estão desaparecidas ou soterradas, o total de mortos pode chegar a 72 mil, mais do que toda a população de Cornélio Procópio, a cidade onde eu nasci.

Entre os milhares de chineses que estão de luto, o sofrimento é especialmente agudo entre os inúmeros pais que perderam seus filhos únicos. Cerca de 7.000 escolas desabaram com o tremor, que atingiu uma área do tamanho de três Bélgicas e afetou de maneira direta 10 milhões de pessoas. Os edifícios soterraram milhares de crianças e adolescentes e deixaram muitos dos pais sem nenhum descendente, algo devastador para um chinês.

Ter filhos é valorizado por questões econômicas e culturais. Cabe a eles, principalmente se forem homens, cuidar dos pais na velhice. Além disso, há mais de dois milênios o confucionismo valoriza o culto aos ancestrais, que é realizado todos os anos no dia dos mortos (4 de abril). A prática foi combatida durante a Revolução Cultural (1966-1976) e era vista com um sinal de atraso e superstição pelos líderes comunistas. Mas com as reformas implantadas a partir de 1978, esta e outras tradições estão ressurgindo com força. Neste ano, o dia dos mortos voltou a ser feriado e milhões de chineses visitaram cemitérios para venerar seus ancestrais.
Os pais que perderam seus únicos filhos no terremoto não terão quem os venere depois de suas próprias mortes.

Aí vão algumas imagens da devastação:

A vida continua em meio à destruição
Chinês comendo em meio à destruição

Crianças desabrigadas em tenda improvisada
Crianças em tenda

Escola primária totalmente destruída
Escola primária

Escola secundária que soterrou 900 crianças e adolescentes
Escola secundária

A sala sem parede
Apartamento sem a fachada

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