Os sonhos e a cultura chinesa

Os sonhos e a cultura chinesa

Cláudia Trevisan

24 de maio de 2009 | 10h15

A “Casa dos Sonhos” é uma pequena construção encravada no complexo de um templo taoísta de 700 anos e que se propõe a ser uma espécie de museu dos sonhos célebres da literatura e da mitologia chinesa. Perdido em um vilarejo de 50 mil habitantes a 440 km de Pequim, o museu traz pinturas que reproduzem sonhos de personagens das obras clássicas, de imperadores, de filósofos e de poetas. As pinturas não têm nada de especial, mas a “Casa dos Sonhos” me pareceu uma forma genial de perpetuação e disseminação de ícones literários. Além disso, é uma miniatura dos mecanismos que fazem com que os chineses sejam chineses há tanto tempo.

A longevidade da cultura e da identidade nacionais são um dos aspectos marcantes desse país. A escrita foi simplificada depois da revolução de 1949, mas não mudou muito em relação ao sistema utilizado há mais de 2.000 anos. Atacado de maneira feroz na Revolução Cultural (1966-1976), o confucionismo sobreviveu e experimenta um renascimento na “sociedade harmônica” do presidente Hu Jintao. Os clássicos da literatura e as obras-primas da ópera também resistiram e continuam a ser lidos por milhões de pessoas.

Entre os sonhos retratados no museu está o de Zhuang Zi (369 – 289 a.C.), o filósofo taoísta que sonhou que era uma borboleta e, quando acordou, não sabia se era ele sonhando que era uma borboleta ou se ele era uma borboleta sonhando que era ele. Também aparece Li Bai (701 -762), o grande poeta da dinastia Tang (618 – 907) e um dos maiores da China, que celebrava a natureza, a Lua e a bebida. Claro que há um quadro para Confúcio (551 – 479 a.C.), o filósofo que como nenhum outro marcou a identidade chinesa.

Algumas das pinturas retratam as próprias obras literárias, como “O Sonho do Quarto Vermelho”, um raio-x da sociedade imperial escrito por Cao Xueqin em meados do século 18 e considerado um dos mais importantes romances da literatura mundial. Mas o maior quadro é dedicado a “O Pavilhão das Peônias”, a obra-prima da dramaturgia chinesa frequentemente comparada a “Romeu e Julieta”. Escrita por Tan Xianzu (1550 – 1616), ela conta a história de amor entre a heroína Liniang e o aspirante a mandarim Liu Mengmei, com quem ela se encontra e por quem se apaixona durante um sonho. A diferença com Shakespeare é o final feliz.

A “Casa dos Sonhos” fica na cidadezinha de Huang Liang Meng, onde ocorre um dos episódios do conto “O Mundo dentro de um Travesseiro”, escrito por Shen Jiji (740 – 800). Foi em Huang Liang Meng que o personagem principal, Lu Sheng, adormeceu sobre um travesseiro emprestado por Lu Dongbin, um dos oito imortais do taoísmo. Lu Sheng sonhou que se casava com uma mulher rica, era aprovado nos exames para ser funcionário do império, tinha cinco filhos e morria aos 80 anos _todas as aspirações dos homens da época imperial. Quando acordou, viu que se encontrava no mesmo lugar e que nem mesmo a comida que estava sendo preparada quando adormeceu estava pronta.

Aí vão algumas fotos da “Casa dos Sonhos”.

A entrada da “Casa dos Sonhos”

A borboleta e o filósofo Zhuang Zi

Li Bai, a Lua e a bebida

O corredor dos sonhos de filósofos e poetas

“O Pavilhão das Peônias”, o Romeu e Julieta da China

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: