Para atingir Hillary, Trump usa mulheres que atacou no passado

Cláudia Trevisan

10 Outubro 2016 | 23h31

Menos de duas horas antes de enfrentar Hillary Clinton no segundo debate presidencial dos EUA, Donald Trump apareceu em um hotel de Saint Louis ao lado de três mulheres que acusaram o ex-presidente Bill Clinton de violência sexual. O evento que durou poucos minutos era uma tentativa desesperada de desviar a atenção do vídeo no qual o candidato se gaba de poder fazer o que quiser com as mulheres, inclusive “agarrá-las pela xoxota”.

Mas a súbita preocupação de Trump com as vítimas de Clinton estava longe de ser sincera. Nos anos 90, quando alguns dos casos vieram à tona, o bilionário criticou as acusadoras do então presidente, usando exatamente o mesmo argumento que adota até hoje para denegrir mulheres: o de que elas não eram atraentes o bastante.

“As pessoas teriam sido mais tolerantes se ele tivesse tido um caso com uma mulher realmente bonita e sofisticada. (John) Kennedy e Marilyn Monroe estavam em outro patamar”, disse Trump em 1999 em referência a Monica Lewinsky, a estagiária com quem Clinton teve uma relação extraconjugal.

O bilionário usou o mesmo critério para atacar Paula Jones, uma das mulheres que estavam a seu lado no domingo. “Todo grupo, Paula Jones, Lewinsky, é um grupo realmente pouco atraente”, disse Trump na época. Segundo ele, seria mais “prazeroso” acompanhar o episódio se as mulheres envolvidas fossem top models.

“Eu não necessariamente concordo com suas vítimas. Suas vítimas são terríveis. Na verdade, ele mesmo é uma vítima. Mas ele se colocou nessa posição”, disse o bilionário em entrevista à Fox News em 1998.

Nas declarações dadas no fim dos anos 90, o candidato defendeu o ex-presidente e afirmou que ele foi perseguido por falsos moralistas no Congresso durante o processo de impeachment. Acusado de mentir sob juramento sobre seu relacionamento com Lewinsky, Clinton foi absolvido pelo Senado em 1999. No ano anterior, o ex-presidente fechou acordo para pagar US$ 850 mil a Jones em troca da retirada da acusação assédio sexual que ela havia apresentado quatro anos antes.

Em uma entrevista concedida à rede CNBC em 1998, Trump chegou a comparar sua conduta à do ex-presidente, em declarações que em certa medida anteciparam o escândalo que envolve sua candidatura agora. “Você pode imaginar quão controvertido eu seria? Você pensa sobre ele com mulheres. Como seria comigo e mulheres? Você pode imaginar?”, perguntou.

Na mesma época, ele também elogiou o comportamento de Hillary durante os escândalos que envolveram seu marido. Em entrevista à CNN em 1998, Trump se referiu à adversária como uma “mulher maravilhosa”, que enfrentou de maneira estoica a superexposição de sua vida íntima. “Eu acho que ela passou por mais coisas do que qualquer mulher deveria suportar, tudo em público. Eu quero dizer, mulheres passam por isso de maneira privada e não aguentam. Ela está na primeira página de cada jornal, cada semana, com o que ocorre em Washington.”

Dezoito anos mais tarde, Trump se encarregou de resgatar as acusações contra o ex-presidente, em uma tentativa de humilhar sua adversária pouco antes do debate de domingo e desviar a atenção do público do devastador no vídeo gravado em 2005, no qual se gaba de comportamentos comparáveis a abusos sexuais.

É difícil imaginar que a estratégia melhore a posição do bilionário no eleitorado feminino, que será crucial na definição da eleição que ocorrerá em menos de um mês. Nesse grupo, Hillary tinha uma vantagem de 20 pontos sobre Trump antes da divulgação do vídeo e tudo indica que a distância aumentou desde então.