Para Rubio, Trump não é conservador o bastante

Cláudia Trevisan

28 de fevereiro de 2016 | 11h00

A emergência do senador Marco Rubio como candidato preferido da ala moderada e tradicional do Partido Republicano é o maior reflexo da guinada à extrema direita dada pela legenda de Ronald Reagan nos últimos anos. Além de ter a mais agressiva proposta de política externa, o filho de imigrantes cubanos é contra o aborto mesmo em casos de estupro, quer acabar com o casamento gay e não perde uma oportunidade para falar de sua fé em Deus e da importância dos valores judaico-cristãos.

Os ataques que Rubio dirigiu a Trump desde o debate republicano de quinta-feira não tiveram por alvo a proposta do bilionário de deportar 11 milhões de imigrantes indocumentados nem a de construir um muro na fronteira com o México ou barrar a entrada de muçulmanos nos EUA. A maior crítica do senador da Flórida foi a de que Trump não é conservador o bastante para representar o Partido Republicano nas eleições presidenciais de novembro.

Rubio pode ser moderado quando comparado ao fundamentalismo e à intransigência de Ted Cruz, o outro filho de imigrante cubano que cumpre seu primeiro mandato como senador. Mas ele está à direita do centro republicano em quase todos as questões relevantes. Na política externa, ele defende o fortalecimento militar dos EUA, o apoio incondicional a Israel, o cancelamento do acordo sobre o programa nuclear com o Irã e a reversão da política de aproximação com Cuba.

O atual confronto vai além da nomeação do candidato republicano à presidência. O que está em jogo é a própria identidade do partido fundado em 1854 por pessoas que se opunham à escravidão. Rubio sustenta que a escolha de Trump será um desastre para a legenda e colocará em risco sua essência conservadora.

O bilionário insurgente tem a seu favor a insatisfação das bases republicanas com seus líderes e com os políticos de Washington. Trump se mantém na liderança, apesar de assumir uma série de posições que equivalem a heresias dentro do credo republicano. Entre elas, a promessa de que ninguém morrerá nas ruas durante o seu governo sem assistência médica. Na prática, isso significa que o Estado assumiria a responsabilidade de cuidar dos pobres, algo impensável para o partido.

Trump também se chocou com os dogmas republicanos ao declarar que não “tomará partido” na disputa entre Israel e Palestina, o que deu munição para Rubio. “Eu estarei ao lado de Israel em cada momento”, disse o senador.

O discurso protecionista é outro ponto no qual o bilionário destoa da retórica de seu partido, o grande defensor da abertura e tratados comerciais em Washington. Não por acaso, o senador Lindsey Graham, que abandonou a corrida presidencial, acusou Trump de não ser um republicano. No debate de quinta-feira, o bilionário deixou claro que tem seus próprios planos para a legenda: “Novas pessoas estão entrando no Partido Republicano. Nós estamos construindo um novo Partido Republicano.”