PC chinês mantém foice e martelo e centralismo democrático

PC chinês mantém foice e martelo e centralismo democrático

Cláudia Trevisan

09 de novembro de 2012 | 06h39

A foice e o martelo dourados e gigantescos dão o tom do cenário solene do Grande Palácio do Povo onde delegados do Partido Comunista se reuniram na quinta-feira para iniciar o mais importante congresso da organização em uma década. A estética soviética, a uniformidade dos atores e a linguagem que inclui “camaradas”, “centralismo-democrático” e “marxismo-leninisno” mostraram aos eventuais desavisados que o segundo maior PIB do mundo continua regida por um partido único que mudou muito pouco desde sua chegada ao poder, há 63 anos.

Formalidade e simbolismo regeram a abertura do evento, no qual todos os detalhes foram milimetricamente ensaiados, incluindo a coreografia das moças que servem água para o chá. O Partido Comunista da China detesta surpresas e adora a demonstração pública de homogeneidade, apesar das ferozes disputas de bastidores nas quais se engalfinham suas diferentes facções. Os 2.268 delegados e os 371 atuais ocupantes do Comitê Central permaneceram em silêncio absoluto na uma hora e quarenta minutos que Hu Jintao dedicou à leitura do “Relatório ao 18º Congresso Nacional do Partido Comunista da China”. Diante de cada um, havia uma cópia do documento e era possível ouvir o som das páginas viradas ao mesmo tempo pelos que ocupavam o plenário.

“A fé dos comunistas no marxismo, socialismo e comunismo é a sua alma política e os sustenta em todos os desafios”, afirmou Hu, que dirige a China há dez anos, período no qual o país experimentou um aumento acentuado da desigualdade social.

No palco elevado do plenário onde ficaram os integrantes do Comitê Central e do Politburo, a conformidade do guarda-roupa também era evidente. Todos os homens usavam camisas claras e ternos negros, com exceção dos militares e dos representantes de minorias étnicas, que exibiam roupas típicas para demonstrar a suposta “autonomia” que desfrutam sob o regime de partido único. No mesmo dia em que os delegados se reuniam em Pequim, quatro tibetanos, três dos quais adolescentes, se imolaram no oeste do país para protestas contra as políticas chinesas.

Quase todos os delegados tinham gravatas vermelhas e cabelos pretos, graças ao extenso uso da versão local de Grecin 2000. Aos 86 anos, o ex-presidente Jiang Zemin, optou pelo acaju enquanto o branco foi assumido por alguns dos demais veteranos aposentados que dividiram a mesa central com os membros do Politburo _oficialmente com 25 integrantes, o grupo está desfalcado desde março, quando Bo Xilai perdeu os cargos que ocupava no partido. O ex-chefe da megacidade de Chongqing está preso desde então e aguarda julgamento sob acusação de corrupção e abuso de poder. Se o seu ex-braço direito Wang Lijun não tivesse protagonizado uma fuga desesperada ao Consulado dos Estados Unidos em Chengdu, havia uma grande probabilidade de Bo Xilai estar sentado na mesa do Politburo na quinta-feira.

Aí vão as fotos que mostram o clima dentro e fora do Grande Palácio do Povo, um edifício de arquitetura soviética localizado na praça Tiananmen, a poucos metros da Cidade Proibida e do mausoléu que guarda o corpo de Mao Tsé-tung:

Integrantes do Politburo e do Comitê Central no palco do plenário do Grande Palácio do Povo

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Funcionárias que servem água para o chá fazem ensaio geral antes da chegada dos participantes do congresso

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Os 2.268 delegados do congresso no plenário com cópias do discurso lido pelo secretário-geral do partido, Hu Jintao

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O ex-presidente Jiang Zemin (no centro, de cabela acaju) ao lado de seu sucesso, Hu Jintao (no centro, à esquerda)

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O Grande Palácio do Povo, onde é realizado o congresso do Partido Comunista que definirá a maior mudança no comando do país em uma década

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A saída de delegados do congresso na praça Tiananmen

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O toque kitsch: vaso de “flores” ornamenta a praça Tiananmen para a realização do congresso

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