Pequim aperta o cerco aos dissidentes

Cláudia Trevisan

13 de janeiro de 2009 | 12h13

O governo chinês fechou no fim de semana um dos mais populares sites de discussão entre intelectuais do país, em reação ao documento “Carta 08”, que pede reformas democráticas, respeito aos direitos humanos e o fim do regime de partido único, em um frontal ataque ao Partido Comunista.
Divulgada no dia 10 de dezembro, a “Carta” havia recebido até ontem 7.200 adesões, de acordo com um de seus 300 signatários originais, o advogado Teng Biao. Vários dos intelectuais que apoiaram o documento tinham blogs no site que foi banido, o bullog.cn.
De acordo com seu criador, Luo Yonghao, o portal alcançou 1 milhão de acessos diários em abril de 2008. O governo retirou o bullog.cn do ar junto com 91 sites pornográficos, alvos de uma campanha moralizadora amplamente divulgada pela imprensa oficial, que não fez menção específica ao site político.
A “Carta 08” gerou das autoridades em toda a China, com a interrogação de signatários em diferentes províncias. Na véspera de sua divulgação, muitos foram pressionados a retirar seu apoio ao documento.
No dia 8 de dezembro, a polícia de Pequim prendeu Liu Xiaobo, um dos mais célebres dissidentes do país. Segundo o advogado Teng Biao, Liu continuava detido ontem, provavelmente em um hotel na periferia da capital.
“O governo está furioso e preocupado com o fato de tantos intelectuais terem assinado o documento”, disse.
O momento é especialmente sensível em razão da proximidade do aniversário de 20 anos do massacre da praça da Paz Celestial. No dia 4 de junho de 1989, tanques do Exército de Libertação Popular colocaram fim a dois meses de protestos de estudantes por reformas democráticas, deixando um saldo de 1.000 mortos, na avaliação da Anistia Internacional.
A “Carta 08” é inspirada na “Carta 77”, divulgada em 1977 na antiga Tchecolosváquia, onde o comunismo acabou apenas no fim dos anos 80. O texto propõe 19 mudanças fundamentais na política chinesa que, se adotadas, poderiam representar o fim do regime comunista. Entre elas, estão eleições diretas, pluripartidarismo, divisão de Poderes e liberdade religiosa, de manifestação, de associação e de expressão.

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