Pequim maquiada

Cláudia Trevisan

14 de julho de 2008 | 11h52

As inúmeras lojas que vendem DVDs piratas em Pequim fecharam as portas e colocaram avisos de que os negócios estão “temporariamente” suspensos, em mais uma medida de maquiagem da cidade para os 500 mil turistas esperados para a Olimpíada. Os jardins estão impecáveis, o número de carros nas ruas será reduzido à metade e as centenas de construções serão interrompidas no período dos Jogos.

O governo pretende limitar o espaço para a diversão e determinou que todos os bares e casas noturnas fechem às duas da manhã durante a Olimpíada. Muitos estrangeiros que vivem na cidade tiveram que voltar a seus países em razão das restrições impostas pela polícia. Os trabalhadores migrantes que construíram todas as instalações para os Jogos também serão obrigados a deixar Pequim.

As autoridades proibiram a venda de carne de cachorro e continuam a campanha pelos “bons modos”, que incluem o respeito às filas e a proibição de que as pessoas escarrem nas ruas.
Não se sabe ainda o que vai acontecer com a meca da pirataria, o Mercado da Seda, localizado na mais importante avenida de Pequim. Fechá-lo pode provocar uma onda de instabilidade social _o maior temor das autoridades_ já que centenas de pessoas dependem dele para sobreviver.
Deixá-lo aberto pode comprometer a intenção do governo chinês de apresentar uma cidade livre de características vistas como comprometedoras, ainda que todo o mundo saiba que elas existiam antes e continuarão a existir depois da Olimpíada.

O grande risco é transformar Pequim em uma cidade morta e plastificada, onde todos estarão apresentando um grande espetáculo chapa-branca.

Não sei se todos aqui lêem o Estadão. Por isso, decidi reproduzir alguns textos da série sobre Pequim que o caderno de Esportes está publicando desde o dia 8. Agradeceria se vocês dissessem se têm interesse em que eu continue a colocar aqui os textos já publicados no jornal. Aí vai o primeiro:

A China que sediará a Olimpíada de 2008 é protagonista da mais espetacular transformação econômica da história, que tirou o país do isolamento e da pobreza de 30 anos atrás e mudou de maneira radical a vida de seu 1,3 bilhão de habitantes. O restante da humanidade assiste assombrada à emergência dessa nova potência, que no curto período entre 2005 e 2008, saiu da sétima para a terceira posição entre os maiores PIBs do mundo, deixando para trás Alemanha, Inglaterra, França e Itália.

A velocidade da mudança é tão grande que não é necessário recorrer à trajetória de pais e avós para relatá-la. A mesma geração viveu em diferentes Chinas ao longo das últimas três décadas, quando foi implementada a política de reforma e abertura.

Quem tem 40 anos hoje nasceu em um país mergulhado no delírio igualitário e violento da Revolução Cultural (1966-1976), passou a infância em um ambiente no qual a comida era racionada e o “terno Mao” dominava o guarda-roupa e chegou à adolescência logo depois de Deng Xiaoping, o idealizador das reformas, proferir a frase “o enriquecer é glorioso” _senha para as mudanças que estavam por vir.

O país onde ter uma bicicleta era o grande sonho de consumo é hoje o segundo maior mercado automobilístico do mundo, com 8 milhões de unidades vendidas no ano passado. Os chineses que viviam de costas para o mundo e combatiam o imperialismo americano se ocidentalizam com uma rapidez estonteante _na maneira de vestir, na crescente liberação sexual, na multiplicação de redes de fast-food, na paixão por grifes estrangeiras e no incipiente consumismo.

A reclusão das primeiras décadas da Revolução Comunista foi substituída pela sedução ao capital estrangeiro e a rápida integração à economia mundial. Deng Xiaoping e seus seguidores abraçaram com fervor a globalização e levaram a China a entrar na OMC (Organização Mundial do Comércio) em 2001. No mesmo ano, o país venceu a disputa para sediar a Olimpíada de 2008, concebida para coroar sua ascensão no cenário mundial.

Desde 1978, a China cresce a uma média de 9,6% ao ano, feito que nenhum outro país exibiu por tanto tempo. Neste ritmo, o tamanho da economia dobra a cada oito anos. A rápida expansão resgatou 400 milhões de pessoas da pobreza absoluta, segundo estimativa do Banco Mundial, no mais bem-sucedido programa de combate à pobreza da história.

Mas o Partido Comunista que perseguiu o sonho da igualdade sob Mao Tsé-tung (1893-1967) hoje governa um país no qual a distância entre ricos e pobres cresce de maneira alarmante. A meteórica ascensão é acompanhada do aumento das tensões e dos contrastes internos, na medida em que a prosperidade beneficia mais os moradores das prósperas cidades do leste do que os 56% da população chinesa que ainda vive na zona rural.

Enquanto Pequim e Xangai exibem uma legião de bilionários, milhões de camponeses ainda trabalhavam a terra com o mesmo arado de madeira puxado por búfalos utilizado há séculos no país.

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