Perguntas sem respostas e paradoxos de Obama na Síria

Cláudia Trevisan

06 Setembro 2013 | 12h15

Não está sendo fácil entender a lógica do presidente Barack Obama em relação à Síria. E não apenas porque cheguei a Washington há três semanas. Muitos americanos que acompanham a política externa do país e a situação do Oriente Médio há anos também não entendem. O que Obama pretende alcançar com o ataque? Quem ganha com o enfraquecimento de Bashar Assad _a oposição moderada ou os terroristas da al-Qaeda? Por que a urgência em agir agora se a guerra civil já dura dois anos e meio, durante os quais 100 mil pessoas morreram? Há um plano de contingência para lidar com os imensos riscos que a operação envolve?

Obama apresentou seu caso como uma questão moral contra a violação de normas internacionais que proíbem o uso de armas químicas e uma “punição” do regime de Assad pelo ataque que deixou pelo menos 1.429 pessoas mortas no dia 21 de agosto, entre as quais 426 crianças.

Mas isso coloca dois paradoxos. O primeiro: com o objetivo de retaliar Assad por violar tratados internacionais, Obama estará ele próprio desrespeitando outra regra internacional, que exige a aprovação da Organização das Nações Unidas para o uso da força contra um país.

O outro paradoxo é punir Assad por matar civis como lançamento de mísseis que certamente provocarão a morte de outros civis, entre os quais mulheres e crianças. Isso potencialmente dará ao regime sírio a chance de apresentar os americanos como os que violam normas internacionais e matam inocentes.

Não está claro ainda o que Obama pretende obter com o ataque. E a maneira com que o presidente apresenta a situação dá a impressão de que ele acredita na possibilidade de bombardear a Síria e voltar para casa. Depois disso, o apoio americano e de seus aliados à oposição moderada na Síria levaria à sua vitória na guerra civil, com a consequente transição para um governo democrático.

Mas até agora Obama não apresentou uma estratégia abrangente para o momento posterior à operação, que pode agravar ainda mais a guerra civil ou levar à desintegração do país.

Essas questões foram levantadas em uma carta enviada ao Senado no dia 19 de julho pelo chefe do Estado Maior das Forças Armadas, general Martin Dempsey. “Nós aprendemos nos últimos dez anos que não é suficiente apenas alterar o equilíbrio do poderio militar sem considerar de maneira cuidadosa o que é necessário para a preservação de um
Estado funcional”, escreveu Dempsey. E acrescentou: “Na hipótese de colapso das instituições do regime na ausência de uma oposição viável, nós podemos, inadvertidamente, fortalecer extremistas e liberar as mesmas armas químicas que buscamos controlar”. Difícil, não?