Polícia ocupa centro de Pequim para evitar manifestação

Cláudia Trevisan

27 de fevereiro de 2011 | 11h07

As autoridades chinesas lançaram mão de artilharia pesada para bloquear a segunda tentativa de organização de protesto contra o governo convocada anonimamente pela internet. Centenas de policiais uniformizados e à paisana ocuparam hoje a área ao redor do ponto de encontro da manifestação em Pequim, onde no fim da semana surgiu um inesperado canteiro de obras.

Até limpadores de rua armados de vassouras foram mobilizados para literalmente “varrer” os que conversavam em pequenos grupos, com o objetivo de evitar aglomerações. Em alguns momentos, a violência imperou: jornalistas foram presos e um correspondente da Bloomberg foi espancado por quatro policiais à paisana.

O primeiro-ministro Wen Jiabao também entrou em campo para sufocar o protesto antes que ele nascesse e realizou um chat de duas horas com internautas do país, no qual prometeu combater a inflação e a alta do preço dos imóveis, dois dos principais focos de insatisfação no país.

O local escolhido pelos autores da convocação era o mesmo do protesto fracassado do domingo anterior: o calçadão em frente à loja do McDonald´s da Wangfujing, uma das mais movimentadas ruas de comércio de Pequim, localizada a pouco mais de um quilômetro da Praça Tiananmen.

Vários policiais à paisana estavam dentro e na frente do McDonald´s no início da tarde, fotografando e filmando os que passavam pelo lugar. Às 14h, horário marcado para a manifestação, a porta principal da loja foi fechada e varredores e policiais entraram em ação para impedir aglomerações do lado de fora.

Vários jornalistas estrangeiros tiveram que apresentar identificação em barreiras policiais nas ruas de acesso à Wangfujing. No sábado, os correspondentes receberam telefonemas de funcionários do governo alertando-os de que deveriam obedecer à regulamentação sobre a atuação de jornalistas estrangeiros no país, apesar de não haver nela nada que impeça a cobertura de eventos em locais públicos e a realização de entrevistas com o consentimento do entrevistado.

Era impossível saber quem estava na Wangfujing com a intenção de participar da manifestação e quem apenas passeava no domingo de inverno. Pouco depois das 14h30, a polícia bloqueou várias ruas de acesso ao local, evacuou a rua e determinou o fechamento dos shoppings centers e lojas, onde turistas e visitantes ficaram presos enquanto a tropa de choque marchava do lado de fora. O movimento voltou ao normal logo em seguida.

A polícia também ocupou a região de Xangai apontada como local de manifestação pela convocação anônima, que começou a circular em um site mantido por dissidentes chineses nos Estados Unidos. Segundo agências de notícias internacionais, pelo menos sete pessoas foram presas na cidade que é a mais rica da China.

As revoltas que derrubaram regimes autoritários no mundo árabe deixaram os líderes comunistas chineses em alerta contra qualquer movimento de contestação dentro do país.

As notícias sobre os movimentos na Tunísia, Egito e Líbia são controladas pelo governo e há censura sobre fóruns e microblogs que tentam discutir o assunto. Várias palavras relacionadas às rebeliões estão bloqueadas na internet, entre elas “jasmim”, nome de um dos mais populares chás da China. No sábado, a censura bloqueou o uso da palavra “amanhã” e hoje, a da palavra “hoje”.

Antes da primeira tentativa de protestos no domingo retrasado, o governo prendeu ou colocou sob vigilância policial cerca de 100 ativistas. Pelo menos cinco deles continuam detidos. Na semana passada, três pessoas foram acusadas de subversão por terem retransmitido a mensagem de convocação para a manifestação.

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