Política para Cuba isolou mais Washington do que Havana, diz Kerry

Cláudia Trevisan

21 de abril de 2015 | 13h53

A política adotada pelos Estados Unidos em relação a Cuba nas últimas cinco décadas e meia contribuiu mais para isolar Washington do que para isolar Cuba no continente, disse na manhã de hoje o secretário de Estado americano, John Kerry. Segundo ele, a retomada de relações diplomáticas anunciada pelos presidentes Barack Obama e Raúl Castro em dezembro contribuirá para uma “nova forma de relacionamento” dos EUA com a América Latina.

Kerry defendeu a superação dos “obstáculos” que dificultam a cooperação política nos hemisfério e disse que seu governo está “aberto” a discutir as “diferenças” e encontrar áreas de concordância com a Venezuela.

O secretário lembrou que Obama teve uma breve conversa com o presidente Nicolás Maduro durante da Cúpula das Américas, realizada no Panamá há dez dias. Também ressaltou que o conselheiro do Departamento de Estado, Thomas Shannon, foi a Caracas antes do evento, a convite do governo venezuelano.

Em discurso feito na 45ª Conferência sobre as Américas, em Washington, Kerry disse que a reaproximação entre Washington e Havana é um dos fatores que tornará possível uma nova era de colaboração no hemisfério, na qual incluiu o fortalecimento da democracia e o respeito aos direitos humanos.

A agenda comum proposta por ele abrangeu ainda prosperidade por meio de investimentos e integração econômica, energia e fortalecimento das instituições interamericanas.

Apesar da declarada disposição de diálogo com a Venezuela, Kerry criticou “os poucos que permanecem congelados em conflitos do passado, teorias econômicas desacreditadas e chauvinismo obsoleto”. Durante a Cúpula das Américas, os presidentes dos países da Alba e da Argentina atacaram os Estados Unidos pelo históricos de invasões e interferência nos países latino-americanos.

Raúl Castro também falou do passado, mas absolveu Obama de responsabilidade e se disse disposto a cooperar com os demais países a despeito de divisões políticas.

“Estou confiante de que o compromisso da administração com uma nova forma de relação com a América Latina vai contribuir de maneira significativa para nossa agenda comum no hemisfério, que inclui o fortalecimento da democracia e o respeito aos direitos humanos”, afirmou Kerry. Ao insistir nesses tópicos, os EUA esperam exercer pressão sobre a Venezuela, onde apontam retrocessos nas duas frentes.

Como exemplo da cooperação nessas áreas, Kerry mencionou a aprovação da resolução sobre direitos LGBT pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, com apoio do Brasil. Outra iniciativa mencionada por Kerry foi a Parceria para Governo Aberto, lançada em conjunto com o Brasil há cinco anos.

Na avaliação do secretário, a criação da Parceria Trans-Pacífica (TPP, na sigla em inglês) ajudará a criar “prosperidade” no continente. O acordo de livre comércio poderá unir 12 países da Ásia e das Américas, entre os quais EUA, Chile, Peru e México. Mas antes Obama precisa convencer o Congresso a aprovar a Autoridade de Promoção Comercial (TPA), que dará ao Executivo o poder de firmar o tratado -os parlamentares poderiam aprovar ou rejeitar a TPP em bloco, sem realizar emendas.

O acordo comercial enfrenta resistência na própria base de Obama, o Partido Democrata, em razão da pressão de sindicatos que temem ver empregos dos EUA serem transferidos para outros países.