Poluição mais que perigosa envolve Pequim

Poluição mais que perigosa envolve Pequim

Cláudia Trevisan

30 de janeiro de 2013 | 07h08

“Muito insalubre” foi a melhor classificação dada nos últimos quatro dias ao ar respirado pelos 20 milhões de moradores de Pequim, entre os quais eu me incluo. Ontem, a medição oscilou entre “perigoso” e “além do índice”, patamar que supera o pior cenário possível visualizado pelos cientistas que elaboraram a escala, que vai de 0 a 500. Às 6h de ontem, o indicador estava em 517. No dia 12 de janeiro, alcançou inacreditáveis 755.

Para quem está imerso na nuvem que envolve a cidade, é quase como participar de uma versão árida de Blade Runner: a persistente chuva está ausente, mas a noite nunca dá totalmente lugar para o dia, que chega e vai sem mostrar o céu. É um cenário claustrofóbico, em um mundo que parece ter sido construído com pé direito extremamente baixo.

Em uma resposta emergencial, o governo de Pequim determinou ontem o fechamento temporário de 103 fábricas extremamente poluentes e ordenou que 30% da frota de carros oficiais deixasse de circular. As medidas paliativas ficarão em vigor pelo menos até amanhã, quando espera-se que o vento e a neve reduzam a quantidade de partículas no ar.

A poluição não é novidade no país mais populoso do mundo, no qual a queima de carvão responde por 70% das fontes de energia. Mas havia a expectativa de que a situação melhorasse com o tempo e não se agravasse. Pelo menos essa era uma das promessas das Olimpíadas de 2008, quando os governantes se gabaram do aumento no número de dias de céu azul na cidade.

O carvão é o mais poluente dos combustíveis fósseis e o consumo da China equivale quase ao total do restante do mundo somado. Segundo dados do governo norte-americano, foram 3,8 bilhões de toneladas em 2011, comparadas a 4,3 bilhões de toneladas de todos os outros países juntos. No ano 2000, a China consumiu 1,5 bilhão de toneladas de carvão, enquanto o restante do mundo queimou 3,8 bilhões de toneladas. Apesar da retórica oficial e do descontentamento da população, nada indica que a dependência da China em relação ao carvão vá diminuir de maneira significativa.

Além disso, as bicicletas estão desaparecendo das ruas e dando lugar a milhões de carros, no que é o maior mercado para a indústria automobilística desde o fim da década passada. Os abastados tentam se proteger instalando purificadores de ar em suas casas e escritórios e usando máscaras com filtros. Mas a maioria tem de navegar sem proteção ou com precárias máscaras cirúrgicas nesse cenário desprovido de horizonte. Aí vão algumas fotos tiradas perto do meio-dia:


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